TEXTO DE 1995, REESCRITO EM 2012 NA OCASIÃO DO CENTENÁRIO DO
NASCIMENTO DE IDÁLIO DE OLIVEIRA
Seis décadas a combater a doença oncológica. Memórias inapagáveis de tantas situações perdidas, mas o olhar ganhava um brilho intenso ao citar doentes que lhe foram ter às mãos com um prognóstico de apenas meio ano de vida e viriam a curar-se.
Idálio de Oliveira, sorriso de menino, recebeu-me na sua clínica quando já contava 83 anos. A entrevista foi para mim emocionante. Tinha à minha frente um pioneiro, tão discreto quanto notável, na história da medicina portuguesa. Pioneiro, sobretudo, na instalação de tecnologias de diagnóstico e tratamento de cancro. Montou a primeira Bomba de Cobalto, o primeiro Acelerador Linear, o primeiro aparelho de TAC e o primeiro aparelho de Ressonância Magnética da Península Ibérica. Foi igualmente pioneiro na técnica de Angiografia Digital em Portugal. De paixão em paixão, Idálio de Oliveira deu primazia aos doentes e ao estudo.
A entrevista começou com uma digressão aos tempos de uma juventude atribulada. Cursou Medicina em Coimbra e Lisboa. Estudou muito por livros emprestados. Uma força interior invejável. Conheceu as sombras da morte. Dos outros e dele próprio. Não deu tréguas ao combate em defesa da vida. Venceu uma tuberculose aos vinte e poucos anos, quando o bacilo maldito dizimava mais de cinquenta por cento das vítimas. Três anos no Caramulo, entregue aos cuidados de Manuel Tapia. Trabalhou durante doze meses já com a caverna declarada, para conseguir assistência gratuita, que lhe era negada enquanto não cumprisse um determinado tempo de serviço, no internato. Ganhava, então, trezentos e vinte escudos por mês. E a estreptomicina permanecia no segredo dos deuses. Repouso e alimentação cuidada. Confidenciou-me: «Julgava eu que seria bastante, contrariando os alertas dos especialistas. Engordei vinte quilos em meia dúzia de meses. Quando me autorizaram a passar o Natal em Lisboa, rasguei as calças de ambos os lados para caber nelas, e só tinha um par. A experiência do Caramulo valeu-me imenso na minha vida clínica.» A caverna, todavia, persistia. Tratamento mais intensivo. Pneumotórax semanalmente, já de regresso ao trabalho. E o "milagre" aconteceu: «Curei-me. Entendo o milagre como uma conjugação de determinados fatores espirituais e físicos difíceis de conceber, mas que se dá. Falo por mim e pelo que conheço de muitos doentes.»
O número sete dominou a vida de Idálio de Oliveira. «Tudo me tem sucedido no dia sete. A minha casa é número sete e até uma namorada tinha o apelido Siete.» Um acidente terrível, também, a sete. «Fiquei todo partido.» Um cancro de rim controlado a custo. «Quase não existo!»
Outra confidência: tinha contos e poemas fechados na gaveta. Esquivava-se, porém, a falar da sua veia poética. A timidez atacava-o a todo o instante. «Nada a fazer.» E fugia dos espelhos. «Não gosto de me ver ao espelho. Tenho a sensação de estar a despedir-me de mim mesmo.» Paixão eterna? «Tratar os doentes com solidariedade.»
O tema da doença oncológica preencheu naturalmente a maior parte da conversa. Insistiu na urgência da prevenção e diagnóstico precoce. Terapêutica enquadrada numa atitude multidisciplinar. Alerta geral de todos os oncologistas. Prioridade absoluta. «A luta contra o cancro já conta hoje com armas poderosas. Destaque para a cirurgia, a radioterapia e a quimioterapia. Mas considero que deveria repensar-se a tendência cada vez maior para se aplicar a quimioterapia de um modo sistemático, principalmente nos tumores sólidos. A quimioterapia pode ser – é – uma arma extraordinária; a meu ver, urge, no entanto, um maior intercâmbio de experiências. Cada doente é um caso, que tem de ser estudado em equipa. Isto já acontece. Julgo, porém, que precisamos de promover mais esta atitude clínica.»
Idálio de Oliveira revelou-me depois dois sonhos. «A engenharia genética permite, hoje, fazer, desfazer, e reconstruir uma célula. Acredito que estejamos perto da descoberta de anticorpos monoclonais, que irão ser o fermento específico contra o cancro. Tenho esperança. Gostaria de assistir ainda a esse passo. Seria, então, motivo para dizer-se: "Coitado do cancro, andou tanto tempo a caçoar connosco!".» Segundo sonho: poder concretizar o projeto da Fundação Idálio de Oliveira. «Deixar esse legado a funcionar eficazmente, num apoio à investigação clínica e ao ensino de uma maneira informal, abrangendo todas as valências, desde o diagnóstico à terapêutica.»
Já no fim falou-se casualmente de flores. Idálio de Oliveira adorava flores.
Alguma preferida? «As rosas, as rosas!» – foram estas as palavras de despedida.
MARIA AUGUSTA SILVA
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ENTREVISTA INTEGRAL
NOS 15 ANOS DA SUA MORTE
Poeta da originalidade. Temperamento avesso a exibicionismos. Subtil na ironia. Rigoroso. Exigente. Trato elegante e franco. Um espírito moldado pelo casamento entre a ciência e a poesia. António Gedeão, pseudónimo literário. Rómulo de Carvalho, o pedagogo, didacta, historiador da ciência, do ensino e da literatura em Portugal; investigador de temas filológicos, sobretudo ligados à terminologia científica. Ainda fotógrafo, desenhador... E sempre tudo fazendo bem. Marcou gerações sucessivas. Lisboeta nascido em 24 de Novembro de 1906, não haverá quem não lhe tenha aprendido e trauteado Pedra Filosofal, especialmente divulgada pela voz de Manuel Freire (décadas sessenta e setenta). Licenciado em Ciências Físico-Químicas (Universidade do Porto), 1931, concluiu, no ano seguinte, o curso de Ciências Pedagógicas. Começou a carreira de professor (1934) no Liceu Camões e lecionou no Liceu Pedro Nunes (Lisboa), depois de uma passagem pelo Liceu D. João III (Coimbra). Embora escrevesse desde criança, só aos cinquenta anos edita o primeiro livro de poesia, Movimento Perpétuo (1956). Desinserida de escolas e de modas estéticas, a poética do autor de Máquina de Fogo (1961) é marcada por uma rara inventividade, nunca facilitada, sempre límpida, por vezes desconcertante. O nome e a obra de Gedeão continuam a tomar parte num imaginário colectivo sem idades. Da poesia destacam-se, ainda, entre outros títulos: Teatro do Mundo (1958), Linhas de Força (1967), Poemas Póstumos (1983), Novos Poemas Póstumos (1990), Poemas Escolhidos, 1997 (antologia organizada pelo autor). O volume de Poesia Completa teve nova edição em 1996, que insere «primeiros estudos de Ulisses e as Sereias», de Júlio Pomar. Peças de teatro: RTX 78/24, em 1963; e História Breve da Lua (para crianças). Autor, também, de As Origens de Portugal – história contada a uma criança (escrito e por si ilustrado na década de quarenta), trabalho com edição póstuma (1998); outra obra de edição póstuma: Memória de Lisboa. Na ficção assinou entretanto: A Poltrona e Outras Novelas (1973). E com o nome de Rómulo de Carvalho trouxe ainda a público diversas obras dedicadas a temas de investigação científica e histórica, nomeadamente História do Ensino em Portugal Desde a Fundação da Monarquia até ao Fim do Regime de Salazar - Caetano. Colaborador das revistas Palestra e Gazeta Física. Foi eleito sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa (1992). A Universidade de Évora conferiu-lhe o doutoramento honoris causa, 1995. Premiado, viu igualmente ser-lhe prestada uma homenagem nacional promovida pelo Ministério da Ciência e da Tecnologia (1996), de que era então titular José Mariano Gago; por essa ocasião foi instituído o Dia Nacional da Cultura Científica (celebrado na data de nascimento do poeta e professor). Condecorado com o Grau de Grande Oficial da Instrução Pública, 1987. Recebeu a Medalha de Mérito Cultural, 1996. Morre em 19 de Fevereiro de 1997. Em 2001, no Museu da Ciência, em Lisboa, decorreu uma grande exposição intitulada Pedra Filosofal, organizada por Maria Luísa Corte-Real, que abrangeu todas as facetas de Rómulo de Carvalho / António Gedeão. Cinco anos depois, na ocasião do centenário do nascimento, a Biblioteca Nacional organizou nova exposição - nomeada António é o meu nome - refletindo a diversidade da produção científica e literária da imensa obra do Poeta da Ciência.
"OBRA COMPLETA": NOTÁVEL EMPREENDIMENTO EDITORIAL
A invulgar força criativa de Rómulo / Gedeão foi reafirmada (e alargada) em 2004 com o grandioso volume Obra Completa, reunindo pela primeira vez a produção poética, novelística, ensaística e teatral do autor de Pedra Filosofal. A obra, coordenada pela escritora Natália Nunes, viúva do poeta e cientista, tem a chancela da Relógio D'Água. Inclui inéditos (e manuscritos) que passam pelos tempos da infância e juventude do autor.
«Penso que este trabalho, mesmo sem acrescentar nada à obra do poeta, poderá, de certo modo, fornecer mais alguns elementos aos especialistas que se interessam pelo estudo da criação literária», declarou-me Natália Nunes na ocasião do lançamento do livro. Nesse sentido, e porque nunca antes se abordaram as produções literárias da infância e da juventude de António Gedeão (que estavam guardadas), o contributo da Obra Completa é essencial e permitirá, nesse aspeto, um maior e melhor conhecimento do homem que, embora tivesse publicado o seu primeiro livro, Movimento Perpétuo, apenas em 1956, desde sempre se preocupou com a arte da escrita, com os acontecimentos históricos, com a língua portuguesa, a pedagogia e, também, com a investigação cientifica.
Ao longo de mais de 700 páginas, bem estruturadas e deliciosamente ilustradas, encontramos, logo a abrir, a primeira quadra de Gedeão, feita aos cinco anos, escrita a lápis: «Era uma vez um menino / Que não era nada feio / O que tinha de extraordinário / Era um feitiço no meio». A expressão «feitiço», que substitui a palavra inicial «coisa», riscada pelo então poeta-menino, assume já uma invulgar noção metafórica e estilística, associada à descoberta e à magia fisiológica, ontológica e amorosa do próprio corpo.
De Gedeão diz Jorge de Sena (num extenso «esboço de análise objetiva» de quase 50 páginas e também inscrito em Obra Completa): «Um homem não começa a publicar livros de versos aos cinquenta anos, para brincar de poeta consigo mesmo, mas porque rompeu os muros de timidez e de orgulho, que o inibiam de mostrar-se o poeta que era». Esse poeta imenso, de registo único, diferente, permanece «na voz de quem a não tem». Permanece no instante e no «poema do futuro» por si explicado: «Conscientemente escrevo e, consciente / medito o meu destino.» Permanece o poeta «do amor sem mestre».
Em Obra Completa de António Gedeão ressalta, por outro lado, a unidade entre a sua poesia e o seu labor científico, entre Gedeão - pseudónimo do poeta que morreu em 19 de Fevereiro de 1997 - e Rómulo de Carvalho, o homem das ciências, o professor, o mestre. Uma unidade que se prende igualmente com o dramaturgo, o ficcionista d'A Poltrona e Outras Novelas e o ensaísta rigoroso, meticuloso e sábio.
Finalmente, em 2010, surgiu novo portentoso volume com mais de 500 páginas - as "Memórias" - coordenado pelo filho Frederico de Carvalho e editado pela Fundação Calouste Gulbenkian (2ª edição em 2011). As "Memórias" terminam com uma frase sem ponto final:
«Chamo-me Rómulo e nasci no dia 24 de Novembro de 1906 com sete meses de gestação. Faleci em
Coube à sua Natália [Nunes] completar: 19 de Fevereiro de 1997.
MARIA AUGUSTA SILVA
19 de Fevereiro de 2012
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ESCRITO NA OCASIÃO DO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO
Nunca morre quem da vida faz tempo útil, usando-o como esteira de valores indissolúveis. Artur Portela, jornalista, escritor, foi um desses homens. Na véspera da celebração do centenário do seu nascimento, na Casa da Imprensa, o presidente Fernando Pires sublinha-me tudo o que Artur Portela deu àquela casa de solidariedade e cultura: «Estão vivos poucos daqueles que conheceram e trabalharam com ele na Caixa de Previdência de Profissionais da Imprensa, como então se designava a Casa da Imprensa. Eu próprio não conheci o grande jornalista, só me recordo de ouvir pronunciar-se-lhe o nome no começo da minha carreira, entre alguns colegas do Diário de Notícias. Na Casa da Imprensa pude, no entanto, apreender e aprofundar a dimensão da obra de Artur Portela em benefício dos jornalistas e das suas viúvas, e a grandeza da sua alma. Não só a ele, mas principalmente a ele se deve o edifício-sede da Casa da Imprensa. Mas estão perenes, nas atas de sucessivas direções e assembleias gerais, os registos do que realizou e do que lhe foi agradecido. Outros jornalistas prestaram assinaláveis serviços aos seus camaradas no desempenho de funções nesta casa, mas a nenhum se deve tanto, em verdadeiro espírito de solidariedade, em absoluta entrega, em autêntica devoção como a Artur Portela».
A sessão de homenagem, que decorrerá no Salão Nobre "Artur Portela", conta com Baptista-Bastos para abordar a personalidade de Portela no jornalismo português. Recordamos que impulsionou a primeira carteira profissional da classe. O filho, o também jornalista e escritor homónimo, evocará a figura do pai e do profissional (v. texto adiante). O presidente da Assembleia-Geral da Casa da Imprensa, João Coito, deverá, também, referir-se a um nome inscrito na primeira linha de uma geração que marcou uma época.
Repórter (de guerra, de quotidianos, do acontecimento), arrebatador e incansável, Artur Portela era mestre no pormenor e no colorido da reportagem. Não hesitava na linguagem poética, própria da sua paixão pelas áreas culturais (artes plásticas, literatura, teatro) a que esteve ligado desde o início da carreira (aos 19 anos), nomeadamente como crítico. Foi um entrevistador arguto, colocando o interesse jornalístico acima das suas ideias e ideais. Republicano sem filiações, celebrizaram-no entrevistas polémicas como as que fez a Churchill ou a Unamuno. As páginas do Diário de Lisboa contaram com o seu talento durante 38 anos, mas outras publicações, entre as quais o Diário de Notícias, beneficiaram dos seus méritos. Brilhante, também, na crónica.
Artur Portela, nascido em Leiria (Abril de 1901) morreu a 12 de Março de 1959, em Lisboa. O coração do autor de Tudo Amor (crónicas e reportagens) e de Divina (novela), fica na memória credora de perene celebração.
MARIA AUGUSTA SILVA
Artur Portela testemunhou como jornalista do Diário de Lisboa a Guerra Civil de Espanha, tendo chegado a publicar em 1937 a obra Nas Trincheiras de Espanha. Em fins de Setembro de 1936 presenciou a libertação de Alcazar e foi nessa ocasião captado por um fotógrafo quando se encontrava entre Francisco Franco e o comandante operacional, coronel José Moscardó. Eis a fotografia:

Um "intruso" em plano destacado em tão histórico acontecimento (para mais sendo republicano e democrata...) desagradou às forças vitoriosas, pelo que de imediato se ordenou aos peritos do laboratório fotográfico a resolução do estorvo, ou seja, a remoção de Artur Portela. Em conformidade, a imagem antologiada para a História passou a ser a seguinte:

Quatro meses depois da primitiva foto o caudilho converter-se-ia em chefe do governo espanhol e empreenderia os duradouros fuzilamentos dos vencidos -- um tema que neste momento retornou à atualidade (caso Baltasar Garzón). Parece improvável que Artur Portela tenha sido conhecedor da trapaça fotográfica. Tendo acontecido, decerto se mostrou até grato. A sua presença ao lado do Generalíssimo constituiria uma dissonância graficamente incómoda para quem afrontara desde muito jovem os regimes déspotas e se batia no próprio país pela restauração da democracia. Todavia, uma foto muito semelhante, realizada no mesmo instante e, claro, intocada de manipulações, foi publicada dias depois no matutino O Século, assinada pelo repórter português Leopoldo Nunes, presumivelmente o mesmo autor da imagem-matriz que reproduzimos aqui. PF
Obviamente, já não há, já não é, já não pode ser o jornalismo que foi, e os jornalistas que foram e como foram. O que não é, porém, totalmente uma virtude: porque há valores que a nova economia, a nova tecnologia, as novas metodologias, a nova terminologia, não despromovem, não ultrapassam, não ocultam. Pelo que não se tratará aqui apenas de memória, mais ou menos afetiva.
A generosidade.
A generosidade da entrega, a generosidade de ser, de fazer que o jornalismo, e não apenas só romanticamente, é Artur Portela, o jornalista cujo centenário de nascimento se assinala, não se eximia, não se poupava, não se elidia, não se negociava. Não estava em trânsito. Era só jornalista, e isso era então muito, e chegava profissionalmente para ser tudo.
A missão.
O sentido de missão: Artur Portela tinha do jornalismo uma alta e exigente noção. Alta no sentido de larga e complexa, exigente no sentido de não-complacente. No sentido de contribuição, de dever, de missão. Só estava bem quando era por bem. E só era por bem quando social e culturalmente se entendia e se praticava. O limite era um desafio, e a honra a resposta a esse desafio.
A solidariedade.
Artur Portela sempre se bateu pelos valores democráticos estruturantes do verdadeiro jornalismo, desde a sua juventude republicana avançada, passando pelo afrontamento da ditadura salazarista e da arma brutal que foi a Censura, e pela sua identificação nomeadamente com movimentos de candidaturas eleitorais opostas ao regime salazarista. Solidariedade que naturalmente se exprimiu na luta sindical e no projeto de solidariedade socioprofissional que foi a Casa da Imprensa. Sem distinguir entre os jornalistas aqueles que ideologicamente sim e aqueles que ideologicamente não. E não apenas por automatismo corporativo, mas por largueza, por aristocracia da sensibilidade.
O Humanismo.
Artur Portela lutou pelos valores sociais e políticos que identificam o Humanismo. Numa perspetiva cívica e política, democrática. Designadamente, na direção da, por considerável tempo, única publicação que defendia a causa dos Aliados, num país onde o poder ideologicamente se filiava no fascismo. Humanismo também cultural. Foi, como então também se era, também se podia ser, o jornalista literário, o jornalista-escritor, o cronista.
Porque se estes valores, a generosidade, a missão, a solidariedade, o Humanismo, foram por este homem naturalmente vividos conforme a sua matriz afetiva, a sua formação cultural, a sua marca geracional, eles permanecem exigentes. Apenas lamentavelmente mais desertificados.
Quando, por exemplo, o jornalismo se mercantiliza, se vedetiza, simultaneamente se exibe e se fecha, quando o jornalismo disputa à velha diplomacia o nome de Carreira, quando o jornalismo é «A Carreira», quando o jornalismo é grande eleitor de cargos políticos e os cargos políticos são grandes eleitores de cargos jornalísticos, quando o jornalismo toma, por oportunismo logístico, por visibilidade, por audiência, as rédeas de um poder que, de facto, não lhe pertence, investiga, processa, julga, condena e sumariamente executa, que valores?
Quando, por exemplo, o jornalismo, designadamente o português, embora obviamente não apenas o português, embarca numa operação de psicoestratégia militar planetária, usando acriticamente, automaticamente, os termos do que podemos definir «teguerrismo», quando o jornalismo não explica, não contextualiza, não distingue, quando objetivamente toma partido, o partido de uma parte e o partido da dinâmica vendedora da própria guerra, da própria destruição, da escalada da irracionalidade, que valores? Pelo que em certo sentido se poderá dizer que o jornalismo ainda não é o que foi.
Não que esse jornalismo que foi tenha sido apenas qualidade moral, cultural e cívica, não que não tenha tido as suas sombras, e não apenas a da institucionalizada noite política que sobre ele, e contra ele, se abateu, mas porque esse jornalismo queria ser véspera de um dia que não veio, de um futuro que este dececiona, trai, dramaticamente não é.
Artur Portela, a oportunidade desta memória - para além da afetividade que, compreender-se-á, só pode ser, nestas linhas, muita -, é a da afirmação de que este homem, parte importante do que ele foi e com tantos camaradas de profissão compartilhou, parte importante do que ele representou, inscrevem-se, não no passado, mas na exigência moral, ética, cultural do futuro.
Outubro 2001
Artur Portela
Ler e escrever cedo o motivaram. Homem de sinceridade, mesmo quando essa franqueza lhe custava inimizades. Polémico, suscitou adesões e ataques como é próprio de quem tem de ajuizar; o que fez com espantosa regularidade e brilho durante mais de meio século, exercendo a sua crítica literária torrencial, combativa, por vezes amarga. João Gaspar Simões, uma das figuras mais carismáticas da crítica literária em Portugal, morreu há 25 anos.
Desassombrado, espírito analítico, desafiou e fez sobressaltar conceitos embutidos em cátedras. Caminhou por dentro da cultura, servindo-a com um ideal inspirado no movimento presencista. Fundou, em 1927, a revista Presença, com José Régio e Branquinho da Fonseca, nomes a que se ligaram outras figuras como a de Casais Monteiro. O curso de Direito, iniciado em 1921, sofreu interrupções; concluiu-o em 1932; presidiu à Associação Académica de Coimbra (1931-1932).
Em meados dos anos trinta fixa-se em Lisboa e trabalha na Biblioteca da Imprensa Nacional. Enquanto crítico, a sua arte profissionaliza-se e projeta-se com invulgar fulgor em jornais como o Diário de Lisboa, Diário Popular, ainda em publicações do Brasil, e, sobretudo, nas páginas do Diário de Notícias; nelas colaborou até morrer, a 6 de Janeiro de 1987. Anatomizou, psicanalisou romances, contos, poesia, teatro. A vastidão e a pedagogia inovadora da sua crítica tornaram-no numa referência. Recebeu em 1981 o Prémio Crítica Literária; foi-lhe atribuído no mesmo ano o grau de Grande Oficial da Ordem de Sant' Iago.
Crítico, dramaturgo, historiador da literatura portuguesa, romancista, tradutor. No ensaio devem-se-lhe alguns trabalhos de fôlego, nomeadamente sobre Eça de Queirós e Fernando Pessoa. Livro de estreia: Temas (1929). Mais apagada ficou a sua criatividade romanesca de que se destacam Elói ou Romance Numa Cabeça, Pântano e Internato. Crítico de timbre geracional? Seja como for, personificou modernidade recusando modismos. Com falhas. Com excessos. Com honestidade e independência, todavia. Chegou a confessar: «Sou o primeiro a prever a falibilidade dos meus juízos.»
Eduardo Lourenço interpretou-o de forma muito curiosa: «Para João Gaspar Simões a literatura não era apenas uma religião, era a Religião de um mundo sem lugar para ela.»
João Gaspar Simões, o crítico. Bem-amado ou mal-amado, ninguém pode ignorá-lo.
MARIA AUGUSTA SILVA
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Comprometida com os problemas humanos e sociais, a escrita de Alves Redol tornou-se uma das mais expressivas do neorrealismo em Portugal. Os ambientes, as vidas, as sedes, os silêncios e as revoltas habitam toda a narrativa do escritor nascido há cem anos em Vila Franca de Xira, onde morreu em 1969.
Alves Redol, boné à feição, orelhas alongadas e descobertas, sobrancelhas fartas, franzidas. Um rosto atento, todo ele concentrado num olhar largo e fundo. Corpo errante, caminhando pelos caminhos do humano, Redol sonhava novas mentalidades, novos espaços, justiça, liberdade e afetos para a gente que lavrava as terras, descia às lezírias, sulcava rios e mares, e corria os lugares de todas as ilusões em busca de um tempo de pão. A realidade social (marca incontornável dos neorrealistas) teve em Alves Redol um intérprete superior em termos de estética literária. Nem todos os neorrealistas lograram essa beleza formal com que Redol soube encontrar e trabalhar a palavra e as personagens. Empenhado e escrupuloso, aliando o jeito da reportagem ao culto da linguística, evoluiu na técnica narrativa do romance até chegar a uma notável desenvoltura. Injustiçado anos a fio pela crítica, apesar de não lhe ter faltado, desde cedo, o estímulo de Rodrigues Lapa (incisivo, exigente), Redol acabaria por ver a sua obra reconhecida, obra acessível (como a desejava), todavia culturalmente sólida.
Ribatejano do mundo inteiro, Alves Redol escrevia refugiando-se, quase sempre, na sua casa do Freixial, onde o pensamento via mais longe os quotidianos, as dores e as esperanças dos campos, as fragas do Douro, os marinheiros, os seus gaibéus.
MARIA AUGUSTA SILVA
29 DEZEMBRO 2011
Neste dia do centenário do homem-escritor que remou contra todas as humilhações reproduzimos um breve depoimento manuscrito sobre a juventude portuguesa, até agora inédito por motivo de a Censura Prévia ter proibido a sua publicação no diário República em data indeterminada da primeira metade da década de sessenta. Infelizmente não foi possível preservar a correspondente "prova de Censura" – assim denominada por ser a prova tipográfica na qual aqueles serviços exaravam uma das três sentenças aplicáveis a um escrito:
"AUTORIZADO" / "AUTORIZADO COM CORTES" / "CORTADO" (ou seja, na totalidade).

[© ARQUIVO HISTÓRICO DE IMPRENSA | PEDRO FOYOS]
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As palavras habitavam-lhe o corpo. Com elas criava a luz, a música e a dança da poesia. David Mourão-Ferreira partiu em 1996, era ainda primavera. Do poeta ficou viva a substância da escrita. Grande como era, a sua obra continuará a surgir como uma descoberta perene. Uma descoberta quando se lê e relê; uma descoberta quando se encontra um ou outro inédito disperso por um lato espólio literário que enriquece a cultura de um país.
Numa outra longínqua evocação registei a descrição fiel de David Ferreira, filho do autor d’Os Quatro Cantos do Tempo, falando do escritor e do pai: «Um homem por essência tolerante. Gostava de pessoas diferentes até por essa mesma diferença.»
David Mourão-Ferreira, numa entrevista ao Jornal de Letras, disse um dia que «o inconsciente é o grande operário dos poemas, mas acaba por pedir sempre o auxílio do mestre-de-obras, que é a consciência.» O criador d’Os Amantes e Outros Contos ou de obras como Gaivotas em Terra sabia usar o inconsciente e a consciência de forma genial. Com paixão. Porque sem paixão não vale a pena, tenha ela o prazo que tiver. Com amor, porque amou sem namorar, «mas nunca namorei sem amar», revelou-me uma noite, no Martinho da Arcada.
Completam-se hoje quinze anos da sua morte. Morreu? David Mourão-Ferreira é alguém com quem apetece, sempre, marcar encontro. Ir com ele, de novo, pelas ruas e jardins da sua Lisboa, sorvendo-lhe o saber, a elegância e a alegria; aprendendo a ver o encantamento e as memórias, as coisas e as pessoas por meio do seu olhar sedutor e maior.
MARIA AUGUSTA SILVA
16/06/2011
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Emília Nadal, meio século dedicado à pintura e ao desenho, é um nome maior da arte contemporânea portuguesa, distinguindo-se por um traço que nos contrários do ser e do mundo busca uma unidade na qual prevalece a harmonia. «Tento o equilíbrio dentro das contradições e dos desequilíbrios, num movimento que contradiz outro, numa cor que encontra o seu contrário. Procuro a conjugação dos contrários sem grandes conflitos.» Essa dimensão, sendo transversal a toda a obra de Emília Nadal, evidencia-se nas "linhas oblíquas", viagens ou vertigens de luz, diálogos num espaço cósmico que é o do próprio imaginário.
Em fevereiro de 2005, na ocasião da sua mostra Canção da Terra, a pintora esclareceu-me: «Não me refugio na harmonia para suportar a desarmonia. A desarmonia dramática a que assistimos a nível mundial é um sinal da condição humana, da sua finitude. Por isso acho outras coisas tão belas. Fico deslumbrada ao olhar os montes, as árvores, o mar, a mais ínfima planta.»
A referida exposição inspirava-se numa composição de Mahler. É a música, igualmente e desde sempre, a reforçar a sensibilidade da mulher e da artista. «Talvez a arte que mais admiro. Dá-me um prazer imenso: exaltação e exultação, mas, sobretudo, muita paz interior» – sublinhou-me. Uma admiração que na sua pintura lhe motivou já séries como Sonata ou Solo, a par de Os Dias da Criação, trabalhos que, entre outros, integravam Canção da Terra. Síntese de cores e movimentos transfiguradores, próximos de uma respiração funda que se faz nos frutos e nos acordes suspensos de um lugar múltiplo, porventura o de um mistério que não importa definir, basta que seja uma realidade de espanto. Emília Nadal adianta: «Acredito que o universo não nasceu do nada, e, a partir de uma realidade que me deslumbra, posso intuir ou concluir que há um Criador, no entanto a minha fé não se apoia numa transcendência pantaísta, vai no sentido de uma revelação.»
O catálogo para a exposição que tenho citado incluía um texto da ensaísta Maria João Fernandes no qual se realçava: «Luz e música fluem na pincelada incomparável de Emília Nadal, simples e clara como a dos mestres do Oriente. Entre esmeraldas verdes e laranjas das árvores do paraíso, perpassam folhas que são já vestígios de uma alegria breve. Breve e mágica, puríssima como a vida, como a vida destas imagens.»
Com inúmeras exposições individuais e coletivas, representada em museus e coleções privadas, Emília Nadal pinta e desenha de pé, rodeada de tintas, pincéis, esponjas e livros, muitos livros de arte no atelier banhado pela claridade do Estoril. Na grande sala de trabalho, uma larga e comprida mesa de madeira e quase rente ao soalho uma preciosidade dos anos sessenta: um rádio sintonizado na Antena2, som óptimo, companhia inseparável.
Por que lhe dará mais jeito pintar de pé? Não tarda a resposta que me dá: «Assim vejo melhor e todos os movimentos tornam-se mais amplos no interior de mim e fora de mim.» Sem rejeitar a "matriz clássica" da sua obra, a transgressão e a modernidade decorrem de uma relação com a arte que foi evoluindo. «Antigamente, refletia muito mais antes de começar um trabalho. Construía uma história e pintava. Hoje, começo por pintar e depois encontro sentido no que pinto. É tudo mais espontâneo, gosto de improvisar. E este percurso é feito com toda a naturalidade. Cada quadro é um grande desafio. Gosto desse desafio.»
Desafiou entretanto mentalidades e acomodações quando, nos anos setenta, criou a série das "latas". À linguagem pop foi buscar a expressão de protesto aos métodos da sociedade de consumo. «Uma forma satírica – declara-me – de mostrar que tudo pode ser embalado, manipulado pela linguagem consumista, até a política e as ideologias».
Pensamento aberto, espírito culto, dinâmico e interventor, Emília Nadal tem saído em defesa de um ensino que «desde os primeiros anos da escola até ao final deve ter educação estética e artística continuada nas mais diversas áreas. Não haverá desenvolvimento educacional, quer no plano individual, quer no coletivo, enquanto não se proporcionar a aprendizagem, a integração e a interiorização dos saberes. Todas as reformas cairão pela base se não houver esse entendimento, essa abertura de horizontes. As disciplinas de educação artística não podem ser consideradas disciplinas fracas» – acentua.
Perentória na ideia de que «a arte educa e desenvolve a sensibilidade de cada um de nós, promove a unidade do corpo e do espírito», Emília Nadal faz um diagnóstico: «O problema não é a falta de artistas, que os temos excelentes nas diversas gerações. O grande problema é que o público está ausente das questões culturais, das artes plásticas, porque não é educado desde muito cedo para uma sensibilidade estética determinante na qualidade da formação do indivíduo.» Deu esse parecer (com Jorge Barreto Xavier) sobre Educação Estética, Ensino Artístico e sua Relevância na Educação e na Interiorização dos Saberes quando pertenceu ao Conselho Nacional de Educação (1998).
Contrária a uma política de subsídios por vezes desestruturada e ineficaz, a pintora de Jardins Impenetráveis realça-me: «Para mim, o principal subsídio é a educação estética e artística desde o primeiro ciclo do ensino básico, prolongando-se pelo secundário.»
Emília Nadal preside desde 2002 à direção da Sociedade Nacional de Belas-Artes (SNBA), tempo que permite um balanço de objetivos conseguidos e de algumas vicissitudes. A maior contrariedade: «A dificuldade na divulgação de iniciativas. O anúncio nos meios de comunicação social é dispendioso. A cobertura ou a referência jornalística dos eventos depende muito do corpo redatorial dos órgãos de informação. Há pessoas empenhadas, outras nem tanto. Mas o que bloqueia a divulgação da arte, o que faz esmorecer a apetência pelas coisas culturais é o divórcio que existe entre a educação e a cultura.»
A SNBA continua a afirmar-se como um espaço independente, gerido por artistas. Emília Nadal gostaria que todos sentissem aquele lugar como sendo a sua casa. «Que os mais jovens se lembrassem, também, desse lugar e do que podem fazer dele» – adianta. Sentindo o gosto de muitos trabalhos de parceria, inclusivamente na realização de exposições, recorda que é função da SNBA «dar oportunidade aos artistas de ali poderem apresentar os seus projetos.»
MARIA AUGUSTA SILVA
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Vejo-te, rosto sorvendo cada linha, cada título, cada imagem do DN, analisando tudo até à exaustão, ora arreliado com as falhas, ora de riso discreto ao canto da boca pela reportagem bem esgalhada, pela notícia conseguida e cuidada.
Vejo-te, chefe de fibra, implacável, a dar-nos cabo da cabeça, objectivando fazer-se mais e melhor. Vejo-te de secção em secção, garganta a ralhar, mãos a ralharem, zangas duras quando se não cumpria o dever de levar todos os dias aos leitores o melhor jornal do mundo.
Vejo-te ainda com a ternura escondida na aparente frieza de uns olhos silenciosos, que, afinal, sentiam os problemas, a dor dos outros e, discretamente, quase tímidos nos afectos, se ofereciam sem alardes aos companheiros, aos amigos.
Vejo-te, vaidoso na indumentária, no bom gosto com que sempre vestiste o teu corpo, a tua personalidade, sem deixares de sujar os braços nas ramas da velha tipografia, salvando-te depois as novas tecnologias.
Vejo-te, cara de mau, minha sábia raposa, abrindo de repente a porta da famosa Sala Verde, então a da Informação Geral, onde eu, o Zé António e o Silva Pires deitávamos o edifício abaixo a cada golo do Benfica! Alice Vieira fazia o mesmo na Cultura e Espetáculos. E o Albano com o Sporting, outros com o Porto. E lá te calávamos as reprimendas com o Faria Artur a reforçar os camaradas numa de calmaria: "chefe, não se preocupe, o jornal está a andar". E tu, por vezes, noite dentro, enchendo a voz com as óperas do teu coração.
Fernando, meu querido Fernando, ontem como hoje muitos viveram e vivem o Diário de Notícias com total entrega às causas do jornalismo. Todas as gerações têm gente imensa. Tu pertences aos sonhadores que se deram para lá dos limites (não sei se algum dia essa grande senhora, Maria Fernanda, tua mulher, te perdoará tão despudorado adultério, o de um homem fiel amante do DN).
Não me alongo mais: não me grites "estás a atrasar o jornal!". Faltam-me neste tempo forças para ir abraçar-te. Deixo-te as palavras da memória e da alma.
Fazes 80 anos, Fernando. Quero ouvir hoje de ti um só grito: um grito de amor à vida.
Um beijo da tua grata e eterna aprendiz,
Maria Augusta
01/06/2011
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Meu poeta, querido amigo,
Ando há anos para escrever-lhe uma carta sem data. Sem data por não serem de hoje (nem de circunstância) as palavras, "frágeis", naturalmente, que gostaria de dizer. Desculpe-me agora o atrevimento. Comecei a admirá-lo muito antes de lhe conhecer o rosto beirão de searas e frutos, de pássaros e flores silvestres, muito antes de lhe descobrir o olhar solidário e inteligente, a voz nascida do fundo dos afectos, as mãos abrindo-se na alegria da partilha. Eram os tempos de todas as irreverências e utopias, de sonhos ancorados no alento da juventude.
Num chão angolano esperançado no futuro, em pequenas tertúlias domésticas e no lume das Redacções, os apaixonados por artes e letras, amantes da poesia, iam colhendo os livros possíveis, apontamentos de boca em boca, de mão em mão, que significavam toda a nossa fortuna. Tudo demorava a chegar-nos, mas foi por essa ocasião (princípio da década de 70) que uma amiga brasileira me falou do Albano. Decorei depois um poema seu, três versos mínimos que haveriam de tornar-se imensos, únicos no meu caminhar algumas vezes à beira da sombra desconhecida: «A vida / - essa invenção magnífica / da morte.» Inscrevi-os numa sebenta, naquela letra pequenina que torna o silêncio soberano; juntei-os a outros poetas que pertencem à minha respiração e nenhum tempo os anula. Tinha igualmente o hábito de os gravar nas toalhas de papel das esplanadas, entre um café e uma torrada bem amanteigada (o colesterol e as artroses ainda não ameaçavam!). Dali os levava para o mar onde me parecia que se tornavam infinitos ao dissolverem-se nas ondas. De certeza que versos de Camões, Antero, Pessoa, Nemésio, Sena, Ramos Rosa, Sophia, Herberto, Cecília, Drummond, Manuel Bandeira, Alda Lara, Rilke, Eliot, Éluard (quantos mais!), se encontraram na viagem íntima em que os lancei.
Confesso-lhe, todavia: só a partir dos anos oitenta, retornada a Portugal, me relacionei profundamente com a sua obra. Acompanho-a, dá-me felicidade. Nunca me separo de «A Vida / - essa invenção magnífica / da morte» do livro Coração de Bússola. Amiúde, interrogava-me: que poder singular exercia (exerce) em mim tal poema?, independentemente do apreço por toda a escrita do Albano, pelo modo como a depurou ao longo de sessenta anos de carreira literária.
Ao entrevistá-lo para o Diário de Notícias (Julho, 2004) estive tentada a que a primeira pergunta andasse à volta daqueles três versos. Tive pudor. A conversa centrou-se nas suas traduções de Neruda, de líricos gregos, de italianos, focando entretanto o rigor, delicadeza verbal, a melodia amorosa e a sublime síntese do seu fazer poético que já ultrapassa a poesia reunida (1950-2000) na notável coletânea Assim São as Algas. Adiei o desejo. Temi que se desfizesse o feitiço... Andava-me cá dentro, contudo, «uma pergunta / do vento». Não tardaria.
Recorda-se? Aconteceu na longa entrevista que lhe fiz para o álbum Poetas Visitados. Abri o diálogo, precisamente, com os desafios que bússola e coração protagonizam. Apesar disso, resguardei aquele poema, secreto companheiro a chamar-me para a claridade quando a morte se me agarrava, se me agarra, «(...) aos pulsos, aos joelhos.» Consegui no entanto desvendar como entra a morte na natureza dos seus versos solares. A resposta iluminou-me: «(...) a presença da morte na minha poesia é uma forma de esconjuro. Uma tentativa de ab-rogação do absurdo». Compreendi a força desse poema no meu sangue: esconjurar a morte embora saibamos que nascemos destinados à noite das cinzas.
Desculpe-me o registo simples desta carta, gesto afectuoso que, não duvido, o espírito fraterno do Albano acolherá. Outros nomes, com brilho e minúcia, lavrarão nestas páginas o terreno da análise literária, o admirável, sólido e discreto percurso de um poeta maior, a arte do tradutor exímio, o saber vasto do ensaísta e a maneira brilhante como o transmite; falarão do mestre universitário, do homem de superior cultura. Eu reafirmo-lhe o que fui referenciando da excelência da sua poesia: a palavra límpida, mestria na elipse, supremo canto, quer do ponto de vista estético, quer ético. A «vocação do silêncio» é essa cristalina totalidade. Relembro a Antologia da Poesia Grega Clássica que traduziu e organizou, trabalho de grandeza ímpar. Sublinho, também, a beleza poética de Uma Casa à Beira da Floresta para crianças. Nunca o imaginara a navegar as águas da literatura dita infantil, porém não lhe perdoarei se deixar secar essa fonte mágica sem idade.
Que mais acrescentar? O encantamento da obra permanece. O carácter do cidadão, a inteireza de si, a amizade, reconciliam-me a cada instante com o barro. Sempre, sempre direi: «A Vida / - essa invenção magnífica / da morte.»
Bem-haja, Albano.
MARIA AUGUSTA SILVA
in 80 Anos – Albano Martins - álbum antológico editado em 2010 pela Universidade Fernando Pessoa.
(Org. Manuela Trigo e Ágata Rosmaninho).
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Cruenta, a notícia factual: Jorge Quininha, um dos nomes maiores da cardiologia portuguesa, morreu no Hospital de Santa Marta, em Lisboa, a sua casa de trabalho e dedicação. Ali dirigia o Serviço de Cardiologia com a capacidade e o saber que o tornaram uma referência. Em poucos meses, um cancro silencioso, inesperado, atraiçoou-lhe a força e a esperança de 53 anos de vida e três décadas de entrega à causa da medicina e ao sofrimento dos outros. No último dia de 2005 deixou o lugar onde tudo deu de si em nome dos doentes e em defesa das ciências médicas. O seu corpo voltou à luz da Beira Litoral, à terra-berço, Aveiro, cordão umbilical que nunca cortou. Foi sepultado no Cemitério Sul da cidade.
Depois das penosas linhas informativas, permitam-me as palavras com que tento apaziguar a incredulidade. Da figura alta e esguia, óculos arredondados num olhar límpido, sorriso afável recortado no bigode grisalhado, guardo a face de alguém incomum, um homem de coração aberto, que muitos corações ajudou a (re)viver. Dinâmico, atento à importância da medicina preventiva tanto como à da medicina curativa. Ciente, ao mesmo tempo, de que novos e admiráveis métodos de diagnóstico e tratamento não excluem outras formas de atuação, até porque cada caso clínico é um caso. Sublinhou-me um dia, em entrevista para o "Diário de Notícias", o quanto é " fundamental, sempre e sempre, escutar o doente, esmiuçar as suas queixas, observá-lo. Exames sem uma história clínica bem feita não terão grande utilidade ". Dizia assim. Fazia assim.
Esta arte médica, a de sentir o doente como um ser total, Jorge Quininha exerceu-a de modo invulgar. Morava-lhe nas veias. Herdara-a do pai, Cândido Quininha. Estou a vê-lo entre a Hemodinâmica e os Cuidados Intensivos, ou na consulta de sábado em Santa Marta, moído de cansaço e no entanto incansável: " Atendo toda a gente, quem está a seguir ? " Nunca esquecerei a sua mão no meu ombro, há pouco tempo: " O mais difícil não é pôr um doente bem-disposto, o mais difícil é saber tratar um doente ".
Visito outra vez a entrevista que lhe fiz em Janeiro de 1999. Uma pergunta a par de tantas:
— Como vai o seu coração?
— Não tenho razão de queixa. Sofro o stress desta vida. Mas também não há alegria mais compensadora do que salvar a vida de alguém.
Hoje escrevo, neste silêncio dorido: ainda bem que a memória vive.
MARIA AUGUSTA SILVA
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Nos trabalhos do ceramista Sérgio Amaral existem códigos e mensagens que se articulam de modo desconcertante. É uma arte insubmissa, sadiamente provocadora, a deste ser atento ao mundo, por isso inquieto, por isso sensível. Sempre a surpreender-nos, como aconteceu na última Feira Internacional de Artesanato (FIL), onde justamente ganhou o 1º prémio de Artesanato Contemporâneo com a peça aqui reproduzida.
O barro ganha nas mãos de Sérgio uma energia única, gerando uma espécie de choque entre a matéria e a forma. Deste jeito, a expressão metafórica realiza-se num discurso que subtilmente se desloca da zona terrena em direção a uma profundeza filosófica ao mesmo tempo tumultuosa e reflexiva. Há na plasticidade de Sérgio Amaral uma interioridade que não abastarda a ironia e por meio dela assume uma atmosfera de bifurcações que se avizinham do abismo para nesse limite flutuarem os grandes questionamentos ontológicos, criando espaços, criando margens para a intervenção do outro; para a intervenção de quem olha e procura decifrar o imaginário do artista, essa constelação carregada de psicologismo e meditação mas igualmente próxima de um impulso criador que tem por matriz o alarme concreto do corpo e do espírito perante os absurdos, os pesadelos, os fantasmas e, não raro, o patético da realidade humana.
As figuras que nascem do engenho de Sérgio Amaral, sejam Evas ou São Pedros, lavradores ou pastoras, músicos ou mulheres grávidas, estão para além dos comuns barros populares. Ao longo do tempo, Sérgio, homem das Beiras (nascido em Santa Luzia, Mangualde), foi tecendo, apurando, uma linguagem estética, uma sensualidade estética, que o afirmam em Portugal e no estrangeiro, representado em coleções particulares e em lugares como o do Museu Nacional do Azulejo. Da obra de Sérgio Amaral, avultando o Barro Negro, permitimo-nos sublinhar os cristos. Sempre a iconografia crística, por séculos e séculos, inspirou artistas, nomes maiores como os de Bosch, Da Vinci, Rembrandt, Giotto, Rouault, Chagall, Dali ou Picasso. À sua dimensão, Sérgio Amaral (o mesmo aconteceu, por exemplo, com Rosa Ramalho) dá-nos um Cristo que é parte de nós, da nossa telúrica respiração. Todos os barros de Sérgio têm uma magia libertadora mesmo quando fazem a nomeação de angústias, de rupturas e perplexidades numa desconcertante articulação de códigos e mensagens.
MARIA AUGUSTA SILVA
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Saramago na redação do DN, tendo a seu lado Maria Augusta Silva
e o diretor Mário Bettencourt Resendes

Pedi a Saramago que escrevesse no meu computador uma frase
dirigida a todos os jornalistas do "Diário de Notícias"
"Procurem a verdade. Eu também a procurava". Creio que esta frase sintetiza o ser humano cheio de inquietação e de buscas que era José Saramago. A frase foi ele mesmo que a escreveu no meu computador, a meu pedido, como se dirigindo a uma redação a que pertenceu, no dia em que, já Nobel, visitou o DN em 1998. A obra dele fala por si. Enquanto homem foi um ser inquieto com ideais e ideias próprias, que independentemente de os partilharmos ou não, sempre provocou e despertou a polémica. E ainda bem que assim foi. Os seus livros, as suas intervenções têm quase sempre o condão de espevitar o pensamento. Polémico também na própria literatura, goste-se ou não do estilo, não se pode negar a excelência da sua escrita. Apesar de nunca ter privado com ele, guardo do momento em que acompanhei nessa visita a memória de uma pessoa muito afável. E confirmei-a depois quando o entrevistei a propósito do lançamento da obra A Caverna, que não é dos seus melhores livros. Lembro-me de me ter concedido uma longa entrevista, apesar de estar com uma agenda muito apertada, o que lhe era sempre recordado pela Pilar, sentada ao lado. Disse-lhe: "Pilar, sossega, vou dar à Maria Augusta o tempo que ela precisar". Interpretei esse gesto como sinal de grande respeito pelo trabalho de um jornalista.
Improviso ditado pelo telefone, para o DN, em 18 de Junho de 2010, dia da morte de José Saramago, e publicado no dia seguinte.
MARIA AUGUSTA SILVA
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Atravessavas a Redação do DN, passo largo, tão largo como o sorriso inteligente que soubeste cultivar. Deixavas-me um beijo na cabeça, um dia agarrei-te o braço: tenho uma ideia para um trabalho, correr o País de ponta a ponta, em nome da vida, aprofundar reportagens sobre a luta contra o cancro, no sentido de o jornal ajudar a uma reflexão séria, porque o cancro não acontece só aos outros, ou seja os outros somos todos nós. Sublinhei que ao cancro chamaria cancro, não "doença prolongada" ou "doença que não perdoa".
Tu, firme: "Começa já". A primeira peça saiu a 1 de Outubro de 1994. Abriu-se a série com as crianças. Sugeri o título de primeira página: A Coragem dos Inocentes. Logo uma agitação bem à moda dos jornais. Argumentava-se (ontem como agora, certamente) que era preciso a força dos números, mortes, estatísticas. Contrariei: Pessoas e sofrimento não são números. Meu querido Mário, ao longo de trinta anos de companheirismo guardei no mais fundo da minha memória o abraço do director, do colega e amigo acolhendo, por fim, A Coragem dos Inocentes.
Pertenceste, Mário, felizmente, à sabedoria e à grandeza do género humano dos imperfeitos. Por isso tiveste (tens) luz própria. Imensa. E hoje, ao procurar dar às minhas lágrimas de perda o equilíbrio das tuas análises, sinto que o silêncio da tua voz faz a entrevista mais difícil do teu caminho, essa de todas as perguntas sem respostas. Mas não duvido que ao interrogares a morte lhe colocarás sempre à frente a palavra coragem, em nome da vida.
MARIA AUGUSTA SILVA
In Diário de Notícias, 3. Agosto.2010
Texto escrito no dia da morte do jornalista Mário Bettencourt Resendes, histórico diretor do "Diário de Notícias
Minutos depois de conhecida a notícia, a Redação do "Diário de Notícias" celebra a atribuição do Prémio Internacional de Jornalismo Rei de Espanha a uma jornalista portuguesa, Maria Augusta Silva,
à época "grande repórter" deste jornal. Em primeiro plano, o diretor Mário Bettencourt Resendes.