Fundado na pluralidade de opinião dos nossos Convidados,
este sítio de encontro procura reunir múltiplas expressões e contrastes,
do humor à análise crítica,
passando pela tão negligenciada cultura da memória.

Miguel Real

Escritor


























CINQUENTA E CINCO


Aos cinquenta e cinco, atira-se o pescoço para trás, projecta-se o olhar em frente e pergunta-se à consciência se está satisfeita ou realizada.

Se apenas satisfeita, sentimo-nos desconformes, arrastando uma melancolia desconsolada, que nos resigna ou nos revolta. Revoltados, percebemos ser tarde para que doravante a consciência se transfigure de satisfeita em realizada.

Se realizada, sentimo-nos primaveris, mente aberta para o verão do nosso contentamento, que é um ocaso sereno e consolado.

A década de cinquenta é o número central da balança do deve e haver da vida.

Dever à vida é ser infeliz. Haver da vida é ter sido privilegiado por acontecimentos benéficos.

Dever à vida é estar vazio, braços para baixo, olhar para baixo, testa para baixo. Haver da vida é ter o passado cheio de realizações e o futuro cheio de ilusões.

Dever à vida é ter estado parado no passeio errado, contemplando o passeio certo do outro lado da avenida, e não ter tido a coragem de atravessá-la. Tivemos medo, receámos ser atropelados, desconhecendo que, parados, nos atropelámos a nós próprios. Haver da vida é não ter tido medo de ser atropelado, porventura ter sido mesmo atropelado, mas ter tido a ousadia de apressar a recuperação do nosso corpo, continuando a caminhar sabendo que o ponto final não existe, é uma invenção, não da vida, mas da gramática.

Dever à vida é reconhecer, mal nos levantamos pela manhã, que a paisagem é o deserto – o centro, as margens, o horizonte. Haver da vida é reconhecer que a paisagem é florida e vistosa, e, se o não for, ter suficiente suplemento de alma para criar um oásis a partir de areia estéril.

Dever à vida é ter secado na consciência os castelos de ilusões da infância. Haver da vida é ter prolongado em adulto os jogos de criança com o mundo, é ter aberto o caminho pedra a pedra, ter perfeito a nossa estrada, que foi a construção da nossa felicidade. Haver da vida é assumir a consciência, aos cinquenta e cinco, que todos temos vida, muitos temos obra, poucos têm um destino – e nós estamos do lado da obra e do destino.



Fátima Marinho

www.fatimamarinho.com














ADIANTE

    

A história dos três porquinhos alertou-nos, na infância, para a robustez do tijolo e para a protecção que as construções sólidas ofereciam contra os lobos. Aquela clara e directa atribuição ao esforço, enquanto garante da segurança – recompensa merecida pela disciplina e pela planificação do trabalho em função dos riscos –, anda agora ensombrada por fragilidades entalhadas na imprevisibilidade do acaso ou da ironia. Desde o dia 11 de Setembro de 2001 não há edifícios à prova da astúcia. Andamos, agora, a aprender que não há sistemas financeiros à prova de crash e que os paraísos fiscais são, afinal de contas, o inferno onde arde a equidade – essa condição da justiça que deveria presidir às relações humanas, sobretudo no que à distribuição de bens respeita.

Este modelo de Sociedade Civil – criado, como disse Rousseau, pelo primeiro homem que murou um terreno e se atreveu a dizer: – isto é meu, depois de encontrar outro homem, suficientemente ingénuo, que acreditou nele –, está prestes a sucumbir. Já todos ouvimos os ais de moribundo. Todos sabemos que o seu tempo terminou. Tropeçamos nas trevas, como zumbis. Estamos, até, fartos de cair, mas não há meio de arrepiarmos caminho. Continuamos a querer vender e fazer luzir, na bolsa de valores, campos de trigo fictícios que, durante uma eternidade, difícil de resgatar, engordaram os cabedais do grande capital. A solidez dos impérios, outrora inatacáveis, fenece. É a face de um novo mundo nas suas dores de parto, acabado que está o tempo de gestação da revolta. Vivemos debruçados sobre o nascimento de uma nova ordem, parida desta desordem que nos ordena. Está em todos os rostos, em todas as ruas, em todas as mãos.

Algo, em cada um de nós, lamenta o declínio das certezas. Algo, em cada um de nós, anseia por fazer da incerteza um caminho certo.

Eis-nos conscientes do que sempre fomos: – peregrinos de um reino, sem muralhas, por achar. Adiante companheiros! .

                                       

                  O MISTÉRIO DAS COISAS ERRADAS

Aproveitando a presença de Fátima Marinho neste "espaço de partilha" convidamos-vos a ouvir a crónica O Mistério das Coisas Erradas, integrada no livro com o mesmo título, editado por Alphabetum. Este e demais textos são ditos de modo sublime por Teresa Silva e gravados por André Tavares.

                                       


                     CONTOS DE DESASSOSSEGO

                            UMA INTRODUÇÃO

Numa breve introdução ao mesmo livro, a autora considera estas crónicas como «contos de desassossego». Justifica: «...para que não possamos andar completamente satisfeitos, enquanto, ao lado, a cem quilómetros ou noutro continente, há crianças que sofrem e lutam para sobreviver.»

                                       


Pedro Foyos

Jornalista e escritor






























































































































































































































































ASSINALANDO O PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DESTE "SÍTIO DE ENCONTRO"
OS AUTORES DESAFIARAM-SE A RESPONDER AO QUESTIONÁRIO
(RENOVADAMENTE PROUSTIANO)
QUE ELES PRÓPRIOS PROPUSERAM NOS ÚLTIMOS MESES
A FIGURAS DA LITERATURA, DO JORNALISMO, DAS ARTES E DAS CIÊNCIAS.



MELHOR DO MUNDO HUMANO
É O AMOR QUE PERMANECE DEPOIS DA PAIXÃO



Trocaria de bom grado o seu primeiro nome?
Gosto muito do nome Leonardo, tanto que o atribuí ao jovem protagonista de um dos meus romances. Mas Pedro também não está mal.
Quantidade de velas no seu último aniversário?
Duas, por sinal uma capicua.
Tatuagens?
Suscitam-me um desprazer semelhante às das frioleiras que por vezes vemos esculpidas a canivete nos troncos das árvores.
Piercings?
Intrigante para quem, como eu, não suporta um simples anel.
Já foi a África?
Não, mas a África vem frequentemente visitar-me na pessoa da minha mulher que, europeia de nascimento, assume-se africana de espírito.
Já chorou por alguém?
Sim. Por mim próprio também.
Praia ou campo?
Campo para caminhar, conversar, pensar. Praia para contemplar o mar e consolar o apetite tonto de eternidade. Dispenso a areia, sou da terra.
Peixe ou carne?
Nem uma coisa nem outra. Sou vegetariano há 55 anos.
Cerveja ou champanhe?
Não consumo bebidas alcoólicas.
Metade cheio ou metade vazio?
Tendo ligeiramente para metade cheio.
Lençóis de cama lisos ou estampados?
Desde que sejam confortáveis ...
Música preferida?
Excluindo os inevitáveis clássicos toca-me particularmente a música de Neil Diamond criada para o filme Fernão Capelo Gaivota.
Filme preferido?
"2001 – Odisseia no Espaço", do genial Kubrick. Permita-se-me realçar também um filme estreado há dias: "A Invenção de Hugo", de Scorsese. A minha paixão pela história do cinema, especialmente pelo pioneiro George Méliès, leva-me a qualificar este filme como superlativa obra-prima.
Flor preferida?
Há uma plantinha aquática (Salvinia auriculata) cuja flor é tão insignificante que mal se vê. Mas a planta em si mesma é prodigiosa. Para viver não necessita mais que água, ar e luz. Rigorosamente mais nada. Assim vive e deixa viver. Um século, se não a molestarem. Significa que o Criador conhecia a receita da perfeição. Depois enlouqueceu.
Qual o animal que lhe merece mais simpatia?
Todos os animais (humano incluído) me merecem simpatia ou, pelo menos, uma curiosidade simpática.
Melhor refrigerante para os dias de calor?
Água fresca.
Qual dos seus amigos vive mais longe?
Todos os que viajaram para estrelas longínquas.

Quantas vezes deixa tocar o telefone antes de atender?
Na distribuição das tarefas domésticas usufruo, por norma, da bondade de não ter de atender o telefone.
Qual a imagem do seu telemóvel?
A que vem de fábrica tem um grafismo interessante.
Pior do mundo humano?
A crueldade racional.
E o melhor?
O amor que permanece depois da paixão.
Acredita na vida extraterrestre?
Absolutamente. Mas coisa diferente é admitir vida inteligente. Subscrevo a tese do "fenómeno acidental" muito bem fundamentada por Carl Sagan: «Somos únicos, irrepetíveis, acidentais.» A propósito de vida extraterrestre não pode ignorar-se a descoberta há um ano do exoplaneta Gliese 581d, potencialmente habitável por seres de natureza similar aos da Terra. Um dia, talvez, emigraremos para lá. Coitado do Gliese 581d.
Um feito de que se orgulhe?
Ter participado (algumas vezes com elevado grau de risco físico) nas lutas pela liberdade de expressão (antes e depois do 25 de Abril).
Última coisa que faz antes de dormir?
A Professora Teresa Paiva não levará a mal que lhe roube a resposta a esta pergunta: «Antes de dormir, sonho um pouco.»
Qual o primeiro pensamento ao acordar?
Então vamos lá.
O que tem debaixo da cama?
Não faço ideia. Vou ver e já digo.
O que nunca tira?
A vida (incluo os não humanos).
Que dom da natureza desejaria possuir?
A infinita paciência das árvores.
Tem um lema de vida?
Não propriamente um lema, antes uma fórmula heraclitiana: «A vida é só uma. Tudo é uma coisa só.»

Que palavra pronuncia diariamente com maior frequência?
Querida.    
Que livro está a ler?
Prestes a terminar: A Guerra dos Mascates, momento altíssimo na bibliografia já vasta de Miguel Real. Não posso deixar de citar um outro, de poesia, lido há meses, que me impressionou imenso: Gado do Senhor, de Rosa Alice Branco).
Um herói de ficção?
Os rapazes da minha geração iniciavam-se na "literatura a sério" em incursões ao Mississípi na companhia do Tom Sawyer e do Huckleberry Finn. Não existiam heróis maiores. Com eles descobri a paixão de ler. Mais tarde, outros dois, inolvidáveis: o Zezé e o Portuga d’ O Meu Pé de Laranja Lima. Com eles descobri que um livro pode fazer chorar um leitor adulto.
E na vida real?
Não acredito em heróis. Mas acredito que há seres humanos invulgarmente corajosos. Nesse quadro destacaria Salgueiro Maia.
Figura histórica preferida?
Leonardo da Vinci.
Um mistério?
O ser humano.
Uma saudade?
Do ambiente nas redações dos jornais pelos anos 60, 70.
Uma memória longínqua?
A tragédia de saber, aos sete anos e meio, quas’oito, que a minha mãe tinha morrido. Acontecera um tempo antes mas ninguém tinha coragem de mo dizer. E já eram tão imensas as lágrimas de a julgar num hospital sem visitas.
Um sonho de adolescente?
Mudar o mundo.
O maior deslumbramento?
Um pôr-do-sol contemplado do alto da Senhora do Castelo, em Mangualde. Dediquei-lhe uma crónica que finalizava assim: «São gloriosos os minutos finais. Nesse fragmento de tempo, o descrente que sou, vacila. Logo a seguir cai o pano. E recupero o sossego dos espelhos de água.»
Uma característica sua?
Estar sempre do lado dos mais fracos.
Deceções que teve na vida?
Pelo final da adolescência concluí em definitivo que não iria mudar o mundo..
A paz é uma utopia?
Sim. Este planeta foi concebido segundo a lei constante dos opostos. Não há paz sem guerra, da mesma forma que não há luz sem escuridão. Nada a fazer.
Um mito que gostaria se tornasse real?
A história da Arca de Noé é muito bonita. E chegámos a um tempo que não seria despropositado começar a construir uma nova Arca de Noé.
A mentira mais atroz?
A que vem no Génesis, fazendo intuir que tudo quanto vive no planeta Terra (o próprio planeta em si mesmo) deve obediência aos ditames de um bípede imperador com poderes ilimitados.
Qual o seu primeiro impulso perante a violência?
Reagir com igual violência. Por uma vez passei do impulso à ação, o que me acarretou seriíssimos problemas.

Vota sempre por ideais ou já deu prevalência à utilidade conjuntural?

Os ideais propagandeados pelos partidos estão em geral descredibilizados. O "voto inútil" resulta por vezes mais útil no sentido de uma mais equilibrada distribuição de vozes.
Lugares onde morou?
Sempre na área de Lisboa, exceto quando, ainda menino e órfão de mãe fui despachado para um internato a 200 quilómetros de casa.
Lugares onde esteve e voltaria?
Jardins londrinos. Estónia com as suas "noites brancas". Hong-Kong com os seus dias estonteantes. Alpes suíços com o seu esmagador Matterhorn. San Petersburgo com o seu Palácio e jardins deslumbrantes. Ai, ajudem-me a parar!
Programas de TV a que assistia quando criança?
Tive o privilégio de assistir às primeiras emissões experimentais em Lisboa, na antiga Feira Popular.
Lembro-me na perfeição dos programas com João Villaret e Vitorino Nemésio.
Programas a que assiste hoje?
Cá por casa consome-se muita informação televisiva a partir das 20h00. Porém, vejo-me cada vez mais refugiado no Mezzo.
Quem lhe envia e-mails com maior frequência?
Recordista indiscutível é o Armando Cardoso, o grande obreiro gráfico e informático deste "sítio de encontro". Nunca os contei, serão largas centenas. Se ele contar os que lhe enviei chegará a um número igual.
Comidas preferidas?
Prefiro um número imensurável de alimentos, exceto pepino, carne e peixe.
Lugar em que desejaria estar agora?
Estou feliz onde estou e com quem estou.
Como gostaria de morrer?
Lúcido.
Regressando, quem gostaria de ser?
Não tenciono regressar.
Espero que tenha ainda tempo para......
… ver o Prof. Paulo Borges no Parlamento da República.



Maria Augusta Silva

Jornalista e escritora










































































































































































































































































































ASSINALANDO O PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DESTE "SÍTIO DE ENCONTRO"
OS AUTORES DESAFIARAM-SE A RESPONDER AO QUESTIONÁRIO
(RENOVADAMENTE PROUSTIANO)
QUE ELES PRÓPRIOS PROPUSERAM NOS ÚLTIMOS MESES
A FIGURAS DA LITERATURA, DO JORNALISMO, DAS ARTES E DAS CIÊNCIAS



ACREDITO QUE A CONSCIÊNCIA É O ÚNICO JUIZ
DOS VALORES DA AMIZADE



Trocaria de bom grado o seu primeiro nome?
Fui baptizada com o nome das minhas avós. Só isso chega para que o estime. Mas na família chamam-me Zita ou Zitó, nas Redacções, regra geral, apenas Maria; para o meu marido nem uma coisa nem outra: sou Estrelinha. E fico por aqui.
Quantidade de velas no seu último aniversário?
Apenas duas: Uma de seis, outra de quatro.
Tatuagens?
Chegam as cicatrizes inevitáveis.
Piercings?
Prefiro os brincos de princesa nascidos da terra para embelezarem a vida.
Já foi a África?
Julgo que nunca saí de lá. África (Angola em particular) é o meu corpo total.
Já chorou por alguém?
Por sofrimento e por alegria. Em todos os casos, as lágrimas são mais do que cloreto de sódio, meu querido Gedeão!
Praia ou campo?
O ideal seria um rio lavado no meio das árvores. E das minhas janelas alcançar o mar.
Peixe ou carne?
Cá por casa divido-me entre cozinha vegetariana para o Pedro e pratos de peixe e carne para a minha mãe. O meu apetite é moderado.
Cerveja ou champanhe?
Que bem me sabe a água! Cerveja nunca bebi. Champanhe: um toque fresco nos lábios numa ou noutra festividade, esporadicamente.
Metade cheio ou metade vazio?
O importante é que o conteúdo não esteja envenenado..
Lençóis de cama lisos ou estampados?
Macios como um abraço de ternura.
Música preferida?
Czardas de Monti interpretadas por meu pai no seu grupo de jazz ou junto ao meu ouvido.
Filme preferido?
Um Homem e Uma Mulher, dirigido por Claude Lelouch. Sobretudo pela simplicidade do argumento e a interpretação tão natural, por isso genial, de Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant. Um filme dos meus verdes vinte anos.
Flor preferida?
Antúrio. Singelo na forma, imenso na expressão erótica da sua solidão.
Qual o animal que lhe merece mais simpatia?
Nunca te esquecerei, Vadiolas. Os meus amigos Paulo Almeida, Nuno Duarte, Pedro Almeida, Deolinda Cruz, Maria Helena e Rosarinho Lemos que me perdoem, mas a minha Vadiolas era a gatinha mais bonita do mundo!
Melhor refrigerante para os dias de calor?
Chá de todos os paladares misturado num grande jarro com água.
Qual dos seus amigos vive mais longe?
Olá pai, olá tio Araújo (meu segundo pai), tio Pedro, Ia, Maria Adelaide, Julinha, Dé, Fernando Daniel, mãe Adelina, Zé Pinto Veloso, Jaime Figueiredo, Armando Rafael... Não há distâncias entre o meu coração e o céu.

Quantas vezes deixa tocar o telefone antes de atender?

Não gosto de fazer esperar ninguém. Fico, no entanto, com os nervos em franja quando do outro lado me chegam campanhas publicitárias em catadupa.
Qual a imagem do seu telemóvel?
Não presto atenção. O telemóvel tem alguma utilidade mas não me encanta nem vicia.
Pior do mundo humano?
A desumanidade.
E o melhor?
O sentimento do humano.
Acredita na vida extraterrestre?
Fantástico é o meu marido querer convencer-me de que foi um extraterrestre quem comeu o queijo ao longo da noite...
Um feito de que se orgulhe?
Dou tudo em nome dos afetos.
Última coisa que faz antes de dormir?
Aconchego os 91 anos da minha mãe. E digo ao Pedro: obrigada por tudo, meu amor.
Qual o primeiro pensamento ao acordar?
Hoje, penso assim: um dia de cada vez. Os desejos, os sonhos de longo alcance deixo-os agora para os meus sobrinhos e sobrinhos-netos.
O que tem debaixo da cama?
Espero que não haja pó.
O que nunca tira?
O sentido do asseio.
Que dom da natureza desejaria possuir?
O da claridade.

... E queria ter herdado a beleza ímpar da alma do meu pai (por que lhe foi a vida tão breve?). De possuir a admirável coragem da minha mãe, a sua invulgar paixão pela vida; de ter a grandeza da tia Augusta na sua capacidade de perdão; de sentir a límpida fé da tia Lola em Santa Rita de Cássia (a "santa das causas impossíveis")
Tem um lema de vida?
Com os meus muitos defeitos e uma ou outra qualidade, procuro o Ser antes do Ter.

Que palavra pronuncia diariamente com maior frequência?

Amor.
Que livro está a ler?
Duas revisitações: A poesia de Sophia e a poesia de Albano Martins (deste último, a também poeta Maria do Sameiro Barroso acaba de organizar, com a sensibilidade e talento que lhe são conhecidos, uma antologia prefaciada por Eduardo Lourenço e dedicada àquele mestre da síntese poética).
Um herói de ficção?
Que me desculpem clássicos e modernos por os meus heróis maiores de ficção serem as fadas e bruxas que os pais me inventavam para não ter medo das trovoadas. Quando troveja chamo logo pela fada Oliveirinha. Oliveira, minha árvore predileta; deve, fundamentalmente, vir daí esse fascínio.
E na vida real?
Os meus grandes heróis são aqueles de quem a história não fala: homens e mulheres que deram (dão) tudo de si matando o cansaço, o desespero e tantas vezes a fome com um grito calado
Figura histórica preferida?
Jesus Cristo. Noutro plano e na história contemporânea: Mandela.
Um mistério?
Todas as coisas relativamente à quais só tenho perguntas e não acho respostas.
Uma saudade?
A de enfrentar a doença com a determinação de um sorriso.
Uma memória longínqua?
O meu irmão Jorge a atirar-se ao poço para ir buscar a bola com que andávamos a brincar. O meu pânico a pedir socorro ao vizinho bombeiro. Ainda a memória de um terrível domingo em que, inadvertidamente, tombei uma chaleira com água quente sobre o peito da minha prima Lola. Nós, a dor, o choro de crianças aflitas. Sei que nunca me incriminaste, porém, a cada hora, no mais íntimo de mim, te peço: perdoa-me Lolinha, irmã da minha alma.
A que ponto consegue recuar mais no tempo?
Aos três anos: o pai a fazer-me caracóis nos cabelos soltos, cobrindo os ombros. Enrolava pratas em colheres e garfos ligeiramente aquecidos para obter um brioso trabalho de cabeleireiro doméstico. E eu tão envaidecida com o meu cabelo e por ter um pai assim.
Um sonho de adolescente?
De muito jovem: o de um jornalismo livre e responsável que salvasse todos os povos da miséria, da opressão, da hipocrisia.
O maior deslumbramento?
O navio Império num mar sem fim levando-me, a mim e ao meu irmão Jorge, e à Lolinha, ao porto de Luanda onde, ao fim de alguns anos, voltámos a descobrir os colos dos nossos pais. Nascia o sol. Nunca os arrebatadores poentes africanos conseguiram fazer esquecer-me o sol nascente.
Um cena inesquecível?
No cais de Luanda, quase não reconheci o meu irmão Zé Manel, o mais velho, ido para África antes de nós. Saído da casca, abraçava o mano Jorge: ouve, pá!, vou arranjar-te uma namorada! Fiquei de boca aberta: o Zé já não fazia queixinhas de nós a ver se os pais nos castigavam para ser dele o tempo todo a andar de trotineta. Pelo sim, pelo não, apliquei-lhe, de imediato, uma canelada preventiva.
Uma característica sua?
Não tenho o culto de mim.
Deceções que teve na vida?
Desejo continuar a acreditar que a consciência será o único juiz dos valores da amizade.
Traumas impossíveis de ultrapassar?
Não há Freud que lhes valha! Mas o tempo, «esse grande escultor» de que nos fala Marguerite Yourcenar, é o mais precioso amparo.
A paz é uma utopia?
A utopia também nos ajuda a formar o carácter, tal como as emoções.
Um mito que gostaria se tornasse real?
Mas que fosse ao contrário do que reza a lenda, ou seja: que a rainha Santa Isabel mandasse D. Dinis dar uma curva e transformasse todas as rosas em pão.
A mentira mais atroz?
Toda a mentira que propositadamente distorce a verdade.
Qual o seu primeiro impulso perante a violência?
Encontrar serenidade para não perder a lucidez.

Vota sempre por ideais ou já deu prevalência à utilidade conjuntural?

Nunca inutilizei nenhum boletim de voto.
Lugares onde morou?
Luanda, o meu lugar de crescimento do corpo e do pensamento e onde paguei sempre renda de casa.
Lugares onde esteve e voltaria?
À baía de Luanda para voltar a abraçar a minha grande amiga Isa.
Programas de TV a que assistia quando criança?
Um espectáculo único, ao vivo: o meu pai a criar brinquedos de madeira para mim e meus irmãos, na varanda da nossa casa em Mangualde.
Programas a que assiste hoje?
Sou mais radiouvinte do que telespectadora. Acompanho, contudo, informação, debates, reportagens e entrevistas que me despertem interesse. A rádio faz parte do meu imaginário da infância: na casa dos tios com quem fiquei quando os pais foram para África estava horas a fio de orelha colada ao grande e velho aparelho da sala, convencida de que os meus pais iriam falar-me de dentro daquela caixa mágica. Doce imaginário!
Quem lhe envia e-mails com maior frequência?
O Armando Cardoso faz parte deste sítio, das nossas vidas. Obrigada, Armando. Entre tantos, tantos, enternecem-me imenso os de Graça Pires, Victor Oliveira Mateus, Maria do Sameiro, Carlos Vaz, Miguel Real, Antunes Ferreira, Gil Montalverne. E tu, meu querido Faria Artur, camarada das lides jornalísticas, envia-me sempre daqueles em que me tratas por «Maria do meu coração».
Comidas preferidas?
Sopa de legumes e rissóis de azeitonas acompanhados de esparregado, cozinhados por mim.
Lugar em que desejaria estar agora?
Aqui, nesta casa de família e amor, em Loures.
Como gostaria de morrer?
A escrever um poema sempre sem ponto final no último verso.
Regressando, quem gostaria de ser?
Dou-me bem com a minha insignificância
Espero que tenha ainda tempo para......
...dizer, sempre uma vez mais: amo-te.



Viale Moutinho

Jornalista e escritor


























































































       NOS 25 ANOS DA MORTE DE JOSÉ AFONSO
Há precisamente 25 anos, muitos milhares de pessoas, oriundas de todos os pontos de País, despediram-se de José Afonso entoando Grândola Vila Morena. Setúbal ficou pejada de cravos. Respeitando a vontade expressa pelo poeta e cantor não houve luto nem bandeiras de partidos.
José Afonso padecia de esclerose lateral amiotrópica que o vinha minando desde há quatro anos. Médicos e amigos (ele próprio, também) sabiam que dificilmente conseguiria resistir por muito mais tempo. Sucumbiu a uma paragem cardíaca numa fase em que já estava ligado a um ventilador no Hospital Distrital de Setúbal.
Uma hora depois de conhecida a notícia, da Redação do Diário de Notícias em Lisboa telefonámos ao nosso camarada José Viale Moutinho, no Porto, onde à época chefiava a delegação do jornal, pedindo-lhe uma crónica. Respondeu-nos: «Estou a escrevê-la.» Na realidade, Viale é autor de um livro sobre José Afonso, ninguém melhor do que ele poderia recordar os momentos de vivência com um amigo de todas as horas. Escolheu para tema principal do seu texto as peripécias ignominiosas por que passaram ambos numa viagem ao Brasil, então sob ditadura militar. José Afonso participaria ali num festival internacional com A morte saiu à rua - em memória do escultor José Dias Coelho, assassinado pela PIDE.
Recuperamos esse texto com uma breve adenda de Viale Moutinho escrita há poucos dias, ao mesmo tempo que proporcionamos uma audição dos vibrantes três minutos de A morte saiu à rua na voz inesquecível de José Afonso.



LEMBRANÇA

Quando o Adriano [Correia de Oliveira] morreu, apercebi-me de que havia no ar qualquer coisa de terrível. Mas todas as canções que vieram depois atenuaram essa impressão.
E as notícias do agravamento da doença do Zeca espaçavam-se. Eu guardava a imagem viva e intensa de ambos, dos amigos. Sobre o Adriano nunca consegui escrever um livro e os dois muitas vezes falámos disso, como é que havia de ser. Com o Zeca as coisas passaram-se diferentemente, pois em Outubro de 1972, quando viajávamos juntos para o Rio de Janeiro, onde ele participaria no Festival Internacional da Canção Popular com A morte saiu à rua, ficava no prelo uma coletânea minha dos trabalhos publicados sobre o Zeca durante a noite política. À chegada a Copacabana fomos recebidos por um contingente de Dops [Departamento de Ordem Política e Social, congénere da Pide] em número igual ao de pides no aeroporto da Portela. Enquanto o Zeca foi arrumar a bagagem, fiquei eu a responder a um homem de cabelos brancos e maneiras amáveis que queria saber como estava a bela Lisboa que ele tão bem aprendera a amar enquanto cá estivera com alguns dos seus agentes da Dops em estágio ou treino com a Pide/DGS. No dia seguinte pela manhã o Zeca levantou-se mais cedo e quando o encontrei estava a conversar com o coronel Chadek. Apresentou-mo informando que era um tipo interessadíssimo na canção popular portuguesa... e que já lhe tinha explicado que A morte saiu à rua era dedicada à memória de José Dias Coelho, quem era José Dias Coelho, que... Bem, sem mais delongas disse-lhe que o sujeito era coronel da Dops.

Os dias seguintes foram pródigos em problemas: para ele era o inferno de em cada meia hora lhe ligarem o telefone para o quarto para que não pudesse dormir, o cancelamento de conferências de imprensa, a batota na votação do Festival, os músicos "apalavrados" que abandonavam os ensaios obrigando a improvisos que só não fariam fundo pela prática que tínhamos daqui de Portugal, dos recitais que se armavam num repente para também de pronto serem interrompidos pela polícia ou por um "peditório" para a "Comissão de Apoio aos Presos Políticos."

O Zeca vinha de outros tempos, tinha muita força. O primeiro disco que publicou, nunca o vi mas ele contou-me. Foi em 78 rotações por minuto. Em 1960 começou a publicar EP's com baladas e fados de Coimbra. Mas a atenção policial começou a apontá-lo a partir do Rapsódia 218 com Os Vampiros e o Menino do Bairro Negro, acentuando-se progressivamente até que um dia: Grândola, Vila Morena... E em 1975, na introdução ao livro que publiquei sobre o Zeca, contava-o:

... José Afonso chega com a guitarra, os textos das canções e a boina. Aproximam-se alguns, falando-lhe em voz baixa, com certo tom secreto. Zeca diz que está um pouco afónico, mas acaba por cantar, com um dos espetadores ao lado segurando as folhas para que se não esqueça dos versos.

Agora, como ao Adriano, vão tocá-lo muito na rádio. Possivelmente como nunca.

ADENDA EM FEVEREIRO DE 2012

Afinal, afinal... não tocaram! Ainda havia quem tinha contas a ajustar com as cantigas! Há sempre uns que comem tudo...

V.M.


A MORTE SAIU À RUA

Faça "play" para ouvir

Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player





José Afonso: monumento em Grândola (fragmento)
da autoria do escultor António Trindade







http://opodaescrita.blogspot.com/






















































































O TORMENTO DA NEVE



Numa cadeira de rodas que não rodava
Vi uma mulher coroada por uma montanha de neve.
Na relva do tapete uma criança de joelhos
Com um pássaro morto no centro da cabeça.
É ela que escreve esta página suja de terra
Com pancadas vivas de violência de sangue e uma gazela.
Não sei se Deus estava presente ou chorava
Mas as janelas sem estrelas e esta beleza sem nexo
Gritaram ouro cortado entre os dedos e o sexo
Cuspiram enxofre para dentro do poema.

Maria Azenha

(2012 - Janeiro)







À FRESCA SOMBRA DA ÁRVORE DA VIDA

A propósito de A Sombra da Romã, de Maria Azenha
Uma leitura



O Senhor Deus plantou um jardim no Éden, no Oriente.
Além disso, colocou a árvore da vida no meio do jardim, e também a árvore do conhecimento do bem e do mal.
Génesis



Ao contrário do Génesis, que não nos diz de que qualidade era a árvore da vida, neste caso sabemos que é uma romãzeira, aqui transformada em romã por um processo de estilo. O estilo é a alma da poesia. Na poesia, o estilo é símbolo.
São 51 poemas, ou 51 bagos de romã. Ou 51 romãs? Ou cinquenta e uma romãzeiras? Ou cinquenta e um jardins? Talvez cinquenta e um Édens com suas cinquenta e uma sombras. Porque para cada árvore da vida existe uma árvore do conhecimento do bem e do mal. Para que possa ser reconhecida a vida. Estes poemas dispõem-se a ser lidos como quisermos ou como soubermos. Como pudermos. Saboreei os bagos como bafos, alguns como desabafos. Todos, como palavras para falar do impossível, como a chama que há no som, ou o sangue que há no sol, o orvalho que há no peito. Falam da natureza profunda ou alquímica das coisas. Do perfume ou essência do mundo.
Curtos, incisivos, cirúrgicos, experiências de lampejo que são e que proporcionam. Para quem se atrever a olhar a luz que não se limita a iluminar, mas incendeia.
Falam de sol, mas também da via que até ele conduz: o luar, os sonhos e a noite, o caminho mais direto para a luz.
Este livro abriu-me horizontes e mostrou-me outros mundos. Num deles, apercebi-me da nunca antes pensada semelhança musical entre as palavras língua e alaúde. Mais uma vez confirmo o que o meu coração sempre soube: que para além de todas as discussões científicas e as tendências que vão estando alternadamente na moda, quem olha a linguagem a partir de dentro, como uma criança ou um poeta, sabe que ela não é aleatória. Língua e lábios são alaúdes. Não duvido. Deus não joga aos dados, mais uma vez se prova.
Portanto, estes poemas podem também ser lidos como um pequeno tratado poético sobre a natureza das coisas e da linguagem. Ou um livro particular de estudo: «Estudo segredos». E não será o mesmo?
Por outro lado, ocorreu-me que se eu tivesse de pintar ou de alguma forma representar estes poemas, fá-lo-ia com baixos-relevos de rendas, ouro e prata, incrustados de pequenos sinais de natureza, como bagos de romã, rebentos de ervas, salpicos de espuma da milionésima onda da praia ou gotas de orvalho. Seria obra de um instante. Porque há uma beleza que brilha assim.
Mas regressemos ao que diz. Observamos que mesmo no amor, isto é, no mundo, o grande palco de aprendizagem do amor, esta poesia aceita a guerra, não procura obsessivamente a luz. Sabe que é essa uma forma divina de aprender a encontrá-la.
Os versos têm olhos. Os olhos possuem uma visão profunda, como um raio X, veem e dão a ver para lá do que do poema se vê; ouvem e dão a ouvir para lá de todos os sons; pressentem e fazem pressentir para lá dos sentidos.
Como toda a boa poesia amorosa é mística. Como toda a boa poesia mística é amorosa.
E geométrica. O círculo é a forma e o perímetro são os sonhos. Quanto aos planos de Deus, esses são desenhados a traços de rostos. É da transfiguração, ao modo de Alice, com planetas que fulminam, e flores que nascem nos cabelos, que esta poesia se sustenta. Para exemplificar a beleza oculta do mundo, não encontro melhor imagem do que um «cântaro de sol que no deserto derrama linho e mel» ou uma boca onde «as aves fazem ninho».
Mas talvez este livro tenha sido escrito para alertar o mundo para o maior dos cuidados, para o único necessário cuidado: «Sinto o perigo de passarmos perto das crianças, / De semearmos destroços de gelo no seu peito.»
Somos as crianças. Sempre fomos. Enchendo de gelo os nossos próprios peitos. Que o fogo da beleza, através daquilo a que poderíamos chamar a consciência poética, possa derreter este gelo antigo e substituí-lo por romãs doces, maduras e tenras.
Que assim seja.

Cheguei à última página. Regresso ao início. Mas agora, só eu e os bagos da romã. Digo, os jardins e suas sombras.

Risoleta Pinto Pedro




José Alberto Braga

Jornalista e escritor.
Antigo vice-presidente
da Casa do Brasil em Lisboa















































































 




LER E ASSINAR:

http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=camoes

Nota: o cômputo de assinaturas não integra o manifesto paralelo
subscrito exclusivamente, há poucos dias, por 59 escritores
portugueses. Seria desejável que essa lista, encabeçada por Manuel
Alegre, fosse adicionada à Petição brasileira, onde constam
igualmente numerosas figuras da nossa cultura





CAMÕES, O NAUFRÁGIO DA LIVRARIA

Nos últimos anos, a INCM não tem tomado qualquer atitude
que beneficie a sua livraria. Vem exercendo influência no
sentido da sua extinção. A inércia tem sido absoluta



Além das agremiações associativas luso-brasileiras, que obviamente atuam num outro segmento, Portugal tem no Rio de Janeiro duas grandes instituições culturais: o Gabinete Português de Leitura e a Livraria Camões.
Fundado em 1837 por comerciantes em geral, ou seja, pessoas emigradas e sem grandes conhecimentos de ordem literária, o Gabinete é hoje a segunda biblioteca do Rio de Janeiro (apenas superada pela Biblioteca Nacional brasileira), incluindo no seu acervo cerca de 350 mil livros.
Já a Livraria Camões atua de forma diversa, mas tornou-se também um instrumento cultural não menos valoroso para o nosso país. Pertencente à Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM), durante mais de cinquenta anos destacou-se como referência na venda do livro português, consequentemente da sua divulgação. Impulsionada por gestores capazes e criativos (lembro-me de Braz Teixeira e Vasco de Graça Moura, por exemplo), a INCM fomentava políticas de estímulo junto aos editores portugueses para que estes enviassem os seus livros para a Livraria Camões, a qual, por sua vez, repassava comercialmente tais obras para todos os cantos do Brasil. A relação comercial entre a INCM e as editoras portuguesas, via Livraria Camões, que eu saiba nunca foi posta em causa. Durante os anos que durou tal parceria, todos viviam satisfeitos. Entretanto, a nossa cultura agradecia.

José Estrela: 30 anos a divulgar a nossa cultura

Na gerência da Livraria Camões há mais de trinta anos, José Manuel Estrela, aveirense de Pardilhó, revelou-se um batalhador incansável da causa. Estrela não se limitava a comercializar os livros. Ele próprio criou um boletim literário mensal (o qual tive a satisfação de dirigir) e trazia até nós alguns dos melhores escritores para o lançamento dos seus livros, como Agustina Bessa-Luís, João Aguiar, António Lobo Antunes, Arnaldo Saraiva, David Mourão-Ferreira, Lídia Jorge, José Saramago e tantos outros. Os livros editados em Portugal chegavam ao Brasil em poucos dias e, desta forma, os leitores, especialmente os estudantes universitários, estavam permanentemente atualizados com os títulos publicados.
Creio que foi em meados dos anos noventa que a situação começou a mudar. Como acontece em casos tais, vários fatores contribuíram para que isso acontecesse. Algumas editoras brasileiras publicaram autores portugueses (os mais conhecidos, naturalmente). Ao mesmo tempo, as sequentes administrações da Imprensa Nacional deixaram de prestar o mesmo atendimento às editoras portuguesas e a confiança do sistema rompeu-se irremediavelmente, somando-se a tudo isso outros fatores de ordem subjetiva, que sempre aparecem nessa hora de negar o trabalho feito e prejudicar o futuro do mesmo. Por outras palavras, os livros não vinham e os livreiros brasileiros começaram a importar os livros diretamente de Portugal. A importar sim, mas cada vez menos, cada vez menos...

A proprietária (INCM) não fornece as próprias edições

Na última década, para desespero de José Estrela, rareava a chegada dos livros pedidos. Hoje em dia – ironia das ironias – não se consegue encontrar um só livro dos que são editados pela Imprensa Nacional, embora a livraria pertença a esta instituição do Estado português. Nos últimos anos, a INCM não tem tomado qualquer atitude que beneficie a sua livraria. Vem exercendo influência no sentido da sua extinção. A inércia tem sido absoluta. Agora, em Lisboa, um certo administrador da INCM resolve poupar alguns euros ao Estado, e pronto, corta-se a Livraria Camões do Rio de Janeiro e a Pátria fica salva no dia seguinte...
Atualmente virou moda cortar na despesa para equilibrar as combalidas finanças lusas. Em muitos casos nada a opor, muito menos em tantos outros assuntos onde o Governo não chega a estender a sua malha. Mas casos há, e este é um deles, onde o erro é crasso e grosseiro. Não há dúvida que a manutenção da Livraria Camões no Rio de Janeiro, por meio de uma outra política, abrangendo uma melhor informatização, o facebook, twitter, mail e tantos outros recursos modernos, permitiria a rentabilização da livraria e o interesse revigorado das editoras portuguesas, com benefícios naturais para os leitores, autores e a nossa própria cultura. Mas tudo isso dá muito trabalho e, se me permitem a deturpação da frase, "adiar é preciso, viver não é preciso".
Pois é, enquanto os velhos do Restelo mantêm o pessimismo e o nada fazer, Camões, ele mesmo, agora transformado em livraria, ameaça naufragar novamente, desta vez na praia de Copacabana.

Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 2012



Jorge Reis-Sá

Escritor e editor










































































































































































































«SE NÃO FOSSE ISTO, ERA OUTRA COISA» (Cameron Crowe)



Trocaria de bom grado o seu primeiro nome?
Nunca trocaria o último.
Quantidade de velas no seu último aniversário?
Trinta e quatro.
Tatuagens?
Um dia.
Piercings?
Só nos outros.
Já foi a África?
Estive lá muitas vezes: nos livros do Kapuscinsky ou nas aulas de Biologia do Homem, por exemplo.
Já ficou bêbado?
De amor.
Já chorou por alguém?
Muitas vezes e a maior parte delas pela mesma pessoa.
Praia ou campo?
Praia.
Peixe ou carne?
Carne.
Cerveja ou champanhe?
Jói laranja.
Metade cheio ou metade vazio?
Sempre metade cheio, mesmo quando mais parece metade vazio.
Lençóis de cama lisos ou estampados?
Muitas saudades da necessidade dos de flanela.
Música preferida?
No distance left to run, dos Blur.
Filme preferido?
O Padrinho, nas suas três partes.
Flor preferida?
A Ana.
Qual o animal que lhe merece mais simpatia?
O Homem.
Melhor refrigerante para os dias de calor?
Jói laranja.
Qual dos seus amigos vive mais longe?
O Eucanaã.

Quantas vezes deixa tocar o telefone antes de atender?
Três.
Qual a imagem do seu telemóvel?
O Guilherme.
Pior do mundo humano?
A sua própria natureza.
E o melhor?
A sua própria natureza.
Acredita na vida extraterrestre?
Sim, e com a mesma certeza que acredito na terrestre.
Um feito de que se orgulhe?
O Guilherme, todos os dias.
Última coisa que faz antes de dormir?
Fechar os olhos.
Qual o primeiro pensamento ao acordar?
O Guilherme.
O que tem debaixo da cama?
Lençóis e toalhas, devidamente engavetadas.
O que nunca tira?
A aliança.
Que dom da natureza desejaria possuir?
Contento-me com os que tenho.
Tem um lema de vida?
Sigo os ensinamentos de um argumentista da escola russa, Cameron Crowe: «Se não fosse isto, era outra coisa».
Escritor, editor… o que dá mais?
Confundem-se diariamente sem nunca se confundirem profissionalmente.
Que livro está a ler?
The End de Ian Kershaw.
Um herói de ficção?
O Manuel Augusto.
E na vida real?
O meu Pai.
Figura histórica preferida?
O meu Pai.
Um mistério?
Não há mistérios, só coisas que o tempo ainda não nos permitiu aprender.
Uma saudade?
Do meu Pai.
Uma memória longínqua?
A do poema O cachecol bege no muro da Foz.
Um sonho de adolescente?
Tocar em Wembley com a Yamaha 9000 que o Roger Taylor usou em 1986.
O maior deslumbramento?
O Guilherme.
Uma característica sua?
«Afinal o que importa não é a literatura.»
Deceções que teve na vida?
Muitas e importantes.
A paz é uma utopia?
E a guerra também.
Um mito que gostaria se tornasse real?
A realidade já tem mitos que cheguem.
A mentira mais atroz?
A descarada.
Qual o seu primeiro impulso perante a violência?
Proteger o Guilherme.

Vota sempre por ideais ou já deu prevalência à utilidade conjuntural?

Voto sempre.
Lugares onde morou?
Famalicão, Porto e Lisboa.
Lugares em que esteve e voltaria?
Rio de Janeiro.
Programas de TV a que assistia quando criança?
Tempo dos Mais Novos.
Programas a que assiste hoje?
Ser "crítico" de televisão na Sábado impede-me, por decoro, de enumerar todos eles.
Quem lhe envia emails com maior frequência?
Aquele senhor da Nigéria.
Comidas preferidas?
Arroz à cabidela da minha avó.
Lugar em que desejaria estar agora?
Estou onde quero.
Como gostaria de morrer?
De olhos abertos, com a Ana e a família do meu filho ao meu lado.
Regressando, quem gostaria de ser?
Eu outra vez.
Espero que tenha ainda tempo para...
acordar amanhã.


ENTREVISTA A JORGE REIS-SÁ (2004)



OBRAS DE JORGE REIS-SÁ APRECIADAS NESTE SÍTIO




Eunice Muñoz

Atriz




QUERIDO PAI NATAL


 ESTE MANUSCRITO DE EUNICE MUÑOZ, NUNCA REPRODUZIDO, FOI REDIGIDO A NOSSO PEDIDO POUCO TEMPO DEPOIS DO NASCIMENTO DO PRIMEIRO BISNETO DA ATRIZ.

PARA COMODIDADE DE LEITURA TRANSCREVE-SE O TEXTO EM LETRA DE FORMA.
VISUALIZE COLOCANDO O CURSOR SOBRE O MANUSCRITO




GRANDE ENTREVISTA A EUNICE MUÑOZ
NA OCASIÃO DO CINQUENTENÁRIO DE VIDA ARTÍSTICA





Graça Pires

Escritora






QUASE LÁGRIMAS


              (Visualize o poema de Graça Pires colocando o cursor sobre a foto)

(Foto: Walker Evans)



Carlos Ademar

Criminologista e escritor




























































    UM SUSTO DE MORTE



Há muitos anos, recebemos uma comunicação no piquete dando conta que uma senhora bastante idosa, vivendo apenas com um papagaio falante e uma dúzia de gatos, fora encontrada morta em casa. O fotógrafo, o técnico das impressões digitais e eu avançámos para o local.
Antes, porém, através do telefone conseguimos apurar que a senhora era de riso fácil e não lhe eram conhecidos inimigos. O marido falecera há anos e desde então passou a viver sozinha com os seus animais de estimação. Habitava o primeiro andar de uma casa antiga com apenas dois pisos. No rés-do-chão funcionava a mercearia do senhor Andrade, velho conhecido e seu fornecedor. De resto, por dificuldades de locomoção, a velha senhora vinha à janela com um cabaz de verga preso a uma corda, dizia ao merceeiro o que precisava, ele colocava os produtos e a conta, ela puxava e na viagem seguinte do cesto, mandava o dinheiro para pagar. A sua relação com o mundo não ia muito além destes contactos de janela, já que não tinha visitas nem familiares próximos.
Foi o senhor Andrade que, estranhando não a ver há uns dias, resolveu telefonar para a polícia. Face à ausência de resposta aos toques de campainha, a PSP chamou os bombeiros para arrombarem a porta. O odor que se libertou foi suficientemente esclarecedor. A senhora estava morta dentro de casa.
O ar pestilento inundara toda a escadaria interior pelo que à chegada da PJ o único elemento da PSP presente aguardava à porta do edifício. Avançou escadas acima o fotógrafo com a máquina em riste, seguindo atrás o colega das impressões digitais e depois eu. A casa era acanhada, mal iluminada, com mobiliário antigo, pobre e escuro, e as paredes apresentavam extensas manchas de humidade de várias tonalidades. Passámos pela sala, daí para a cozinha e depois por um corredor que desembocava no quarto, a fonte de todos os maus odores. Nos tampos de todos os móveis havia gatos, não em porcelana, mas bem vivos, que iam movendo a cabeça para acompanharem a passagem dos intrusos. Os mais afoitos começaram a descer e a roçar-se nas pernas de quem queria despachar o trabalho para rapidamente regressar a um cenário e atmosfera mais agradáveis.
O cadáver estava sobre a cama e apresentava já uma coloração escura, típica da putrefação que se instalara. A exemplo das restantes divisões, o quarto era pequeno e escuro, até porque a pequena janela se encontrava fechada e tinha o cortinado corrido. A única lâmpada pendente do teto, de fraca potência, de pouco adiantava. O fotógrafo foi disparando e os flashes sucediam-se enquanto eu e o das impressões digitais, sem trocarmos palavra íamos especulando mentalmente sobre o que se teria passado. O cadáver tem um certo magnetismo ao ponto de os nossos olhos, vencido o primeiro embate, dificilmente conseguirem libertar-se dele. O silêncio estava em sintonia com a penumbra e apenas era profanado pelos disparos da máquina.
De súbito, umas gargalhadas estridentes e prolongadas de mulher velha ecoaram por toda habitação. Um impulso vindo sabe-se lá donde impôs-nos que ficássemos rapidamente longe dali e num ápice, sem olharem para o lado, os meus colegas correrem porta fora. Por mim ainda dei o primeiro passo para lhes seguir o rasto, porém, ao olhar o percurso da fuga, a um canto do quarto deparei com um poleiro de papagaio com o respetivo locatário a fazer uma demonstração competente dos seus talentos.
A senhora morrera devido a enfarte, para nós foi um susto de morte.




Henrique Antunes Ferreira

Jornalista
Antigo chefe da Redação do Diário de Notícias









































































































































































































NELSON MANDELA É O MEU HERÓI NA VIDA REAL



Trocaria de bom grado o seu primeiro nome?
Não, gosto deste.
Quantidade de velas no seu último aniversário?

Imagem de resposta enviada pelo Convidado
Tatuagens?
Nem pensar.
Piercings?
Nem pó..
Já foi a África?
Já vivi em África, e gostei.
Já ficou bêbado?
Sim, mas muito poucas vezes… se me consigo recordar.
Já chorou por alguém?
Sim, e por diversos motivos. Mas não sou choramingas…
Praia ou campo?
Campo, sem dúvida.
Peixe ou carne?
Sou um verdadeiro carnívoro, adoro o porco bísaro.
Música preferida?
Fado.
Cerveja ou champanhe?
O que é cerveja? Joga na Liga… Sagres?
Metade cheio ou metade vazio?
Cheio até aos bordos; não ponha, que eu bebo.
Lençóis de cama lisos ou estampados?
Tanto me dá como me deu. Já dormi sem lençóis e não
senti falta deles.
Filme preferido?
A Canção de Lisboa, com a Beatriz Costa, o Vasco Santana e o António Silva; sem droga nem sangue, nem sexo.
Flores preferidas?
Malmequer.
Qual o animal que lhe merece mais simpatia?
O cão, ainda que não tenha nenhum. Mas, em puto, tive vários cocker spaniel.
Melhor refrigerante para os dias de calor?
Uísque com soda e vinte quilos de gelo – por copo…
Qual dos seus amigos vive mais longe?
Uma, na Austrália. Já lá fui e é longe pra burro.
E anda-se de cabeça para baixo.

Quantas vezes deixa tocar o telefone antes de atender?
Tento atender logo; mas…
Qual a imagem do seu telemóvel?
Os meus quatro netos e a neta.
Pior do mundo humano?
Desumanidade.
E o melhor?
Viver.
Acredita na vida extraterrestre?
Acredito na vida terrestre; não acredito no Céu nem no Inferno. No que existe na Terra, nisso, acredito, infelizmente. Extraterrestres? Já chegam os intraterrestres...
Um feito de que se orgulhe?
Palavra que não me lembro…
Última coisa que faz antes de dormir?
Colocar a máquina por mor da apneia.
Qual o primeiro pensamento ao acordar?
Onde deixei os chinelos…?
O que tem debaixo da cama?
Um cofre-forte. Vazio.
O que nunca tira?
A cabeça, ainda que o senhor Pinto da Costa já a tivesse pedido numa bandeja, tal como a do S. João Baptista.
Que dom da natureza desejaria possuir?
A calma de um poente de Goa.
Tem um lema de vida?
Não ter vergonha de mim próprio.
Que livro está a ler?
Reler: Bichos, do que devia ter sido o nosso Nobel, Miguel Torga.
Um herói de ficção?
Capitão Nemo no seu Nautilus.
E na vida real?
Nelson Mandela.
Figura histórica preferida?
Repito, se não se importam: Nelson Mandela.
Um mistério?
Será que os meninos vêm de Paris no bico de uma cegonha?
Uma saudade?
Do meu Pai Henrique; mas não sou de saudades.
Uma memória longínqua?
Quando caí de uma figueira, tinha cinco anos… e parti a cabeça. Que assim ficou até hoje.
Um sonho de adolescente?
Ser jornalista. E sou.
O maior deslumbramento?
O pôr-do-sol em Goa e em África.
Uma característica sua?
Gordo-perfeccionista.
Deceções que teve na vida?
Umas quantas. Mas não digo, porque sou muito envergonhado, tímido e pudico.
A paz é uma utopia?
Não. Tem de existir, doa a quem doer. Mas, infelizmente…
Um mito que gostaria se tornasse real?
Essa mesma, a paz.
A mentira mais atroz?
Odeio todas as mentiras.

Vota sempre por ideais ou já deu prevalência à utilidade conjuntural?

Sempre por ideais; mas a vida é madrasta e dificilissimérrima.
Lugares onde morou?
Lisboa, Luanda, Pangim, Madrid… e chega, já são muitos.
Lugares em que esteve e voltaria?
Espero voltar: Goa.
Programas de TV a que assistia quando criança?
Quando era criança (palavra que já fui, ainda que não se note) felizmente ainda não havia TV em Portugal.
Programas a que assiste hoje?
Futebol, rugby e musicais sem lamechas. Já não aguento telejornais; mesas redondas e debates – abomino.
Quem lhe envia emails com maior frequência?
Tenho mais de 1500 correspondentes, mas todos os dias só uns quantos. Sei lá… uns vinte e tais.
Pratos preferidos?
Cozido à portuguesa, muamba e sarapatel, cada cor seu paladar.
Lugar em que desejaria estar agora?
Em Goa. Sou mais goês do que os goeses.
Como gostaria de morrer?
Acordar morto.
Regressando, quem gostaria de ser?
Nelson Mandela, sou mesmo admirador dele, como se pode ver.
Espero que tenha ainda tempo para...
… escrever umas coisas…


ENTREVISTA A HENRIQUE ANTUNES FERREIRA (2008)
































































































































OUTONO: TRÊS OLHARES EM FAMÍLIA

    
Nota prévia. Para se compreender a razão de aparecerem neste espaço três convidados (com um apelido comum e mediático) será necessário recuar alguns anos, exatamente ao momento da atribuição a André Letria do Prémio Nacional de Ilustração (mais tarde ganharia também, entre outros, o Prémio Gulbenkian), quando já se firmava como nome maior nas artes plásticas e sobremaneira no âmbito da ilustração de livros para crianças. A distinção justificou a entrevista que lhe fizemos e publicada no "Diário de Notícias". Quisemos que nos descrevesse o ofício de ilustrador. Ou seja, o modus operandi da conceção de uma imagem gráfica inspirada num texto poético ou narrativa ficcional. André Letria disse-nos:
«O ilustrador deve ser capaz de pegar no texto, entrar nele, percebê-lo, desmontá-lo e reconstruí-lo numa outra dimensão criativa.»
Explicação objetiva, cristalina. Tanto que a remetemos agora para dois homens da escrita, o pai José Jorge e o tio Joaquim, ligeiramente reformulada:
O escritor deve ser capaz de pegar na ilustração, entrar nela, percebê-la, desmontá-la e reconstruí-la numa outra dimensão criativa.
Em anexo fizemos seguir a belíssima e surpreendente imagem que, a nosso convite, realizou para este espaço. Sendo o Convidado um artista não se espera que escreva, antes que… crie arte. Sugerimos o Outono recém-chegado. O tema entusiasmou-o de imediato. José Jorge Letria e Joaquim Letria aceitaram o desafio. O resultado aí está. Dois textos magníficos, interpretando, complementando (ilustrando?) a obra do filho e sobrinho. A equipa autoral José Jorge Letria / André Letria, fundada numa admirável cumplicidade e sentido de partilha, existe há muitos anos. Frequentes vezes o André ilustrou os livros do pai. Agora invertemos-lhes os papéis, com o tio Joaquim a entrar também na dança…
Comecemos então pelo frontispício de honra – a imagem criada por André Letria:



OUTONO
Um certo olhar de André Letria
    


Ampliar imagem



OUTONO
Um certo olhar de José Jorge Letria
(TEXTO SUSCITADO PELA CRIAÇÃO DO FILHO ANDRÉ)


Ampliar imagem


Um homem junto de uma árvore nunca está só. Tem com ele a sombra, a elegância do tronco e dos ramos alongados em direção ao céu, ao do dia e ao da noite. É como se o homem dissesse: "A minha solidão é sempre um ato de partilha, pois tenho a companhia de uma árvore para sentir comigo o desconsolo dos dias vazios". O homem podia estar à espera de Godot ou apenas da palavra Fim, a rematar um breve texto em que se fala de tudo e de nada, a propósito de afetos.
Depois o tempo começa a correr contra o homem. Caem as folhas, os sonhos e, às vezes, também as lágrimas, a que a Lua empresta a coloração baça e esquiva das pérolas. O homem pede ao ilustrador que o retrate tal como é e como sente. E lá está ele a cair devagar, ao ritmo das folhas e das ilusões perdidas. O homem entristece, mesmo às portas do Outono, que é uma casa velha e silenciosa, onde tudo declina menos a visita matutina do agasalho do Sol.
O homem procura sinónimos para a palavra Outono no dicionário dos vocábulos magoados. E só um lhe ocorre: velhice. A árvore despe-se devagar, na mais contida tristeza, como se quisesse dizer ao homem: "Comigo a teu lado a solidão é menos agreste e dolorosa". Tudo cai com delicada precisão acompanhando o movimento das folhas. Tudo cai, até o casulo das ideias e das imagens. Tudo cai e tudo se transforma, no coração do homem e da vida.
Olhado a partir do tapete de folhas mortas, o homem parece mais alto e esguio, mais perdido, mais próximo do desenho de uma árvore nua. Alguém dirá dele um dia: "Partiu assim de repente, num dia de Outono, e tinha tantas coisas bonitas e sempre adiadas dentro da cabeça".


OUTONO
Um certo olhar de Joaquim Letria
(TEXTO SUSCITADO PELA CRIAÇÃO DO SOBRINHO ANDRÉ)


Ampliar imagem


Este Outono de André Letria tem uma vantagem vital no trabalho do ilustrador: é inteirinho da sua criatividade e não foi condicionado por nenhum texto, ideia, ou subalternidade a palavras muitas vezes menores que o levam – como ele próprio explica – a ter de desconstruir para se meter lá dentro e reconstruir todo um discurso e outra visão duma conceção que é a sua. Desta vez, deram-lhe um mote. E ele que se amanhasse como se amanhou, e bem! Se o Outono é o cair da folha, para alguma gente também pode ser o bastante para perder a cabeça. E com as suas cores quentes, os seus dourados e vermelhos, o Outono é uma estação quente, só vista com tristeza por quem contempla a natureza prisioneira dos jardins amestrados, sem a viver à solta, pelos campos, da queda da folha ao rebentar das flores e à explosão dos frutos, tudo o que afasta a sombra dum baraço ao pescoço e uma vida que se pendura do ramo duma árvore. As ilustrações de André Letria enriquecem-nos. Porque como aconteceu com as iluminuras nos velhos livros, não só nos ilustram como valorizam os textos de quem juntou ali as palavras, a ponto de serem hoje elas a resistirem e darem valor às obras. Quem sabe se não será para repor a correção e justeza na hierarquia entre texto e ilustração que tanta gente que agarra numa publicação ilustrada a valoriza sem saber, justificando-se, depreciativamente, na sua ignorância… que está só ”a ver os bonecos”… .
    



AUTOR DO MÊS • ANDRÉ LETRIA

As nossas entrevistas a André Letria, José Jorge Letria e Manuela Alves (autora de um livro infantil ilustrado por André Letria):

Grandes Entrevistas

Quem tenha interesse em conhecer melhor o artista e a obra não poderá deixar de fazer as visitas seguintes:

www.andreletria.pt
http://andreletria.blogs.sapo.pt
http://bloguedopato.blogs.sapo.pt
www.pato-logico.com


Mário Cláudio

Escritor














O FUTURO A QUE TEREMOS DIREITO

    

O homem tem hoje consciência das suas misérias e de remédios para as evitar. Ainda não atingiu a fase de evolução que lhe permita sobrepor-se a essas misérias, por exemplo, à miséria que transforma o homem em inimigo de si próprio. Há uma espécie de bússola que nos indica o caminho, mas a progressão será sempre com avanços e recuos. Estamos numa fase de grandes recuos.
O retrocesso deve-se ao esquecimento de certos valores, alguns deles muito presentes nos anos sessenta: pacifismo, solidariedade, superação de conflitos rácicos, liberdade. Foram substituídos por ideários retrógrados: fundamentalismos e o económico a comandarem aquilo a que poderíamos chamar, genericamente, o moral.
Esse outro tempo foi marcado por uma presença constante, mas nem sempre autoconsciente, dos chamados "líderes de opinião". De Che Guevara a Bob Dylan, passando por João XXIII, o do Concílio, havia-os para todos os gostos. O estilhaçamento dessa conjuntura humana que possuía muito de tribal, mas que se identificava pelo "rosto", traria funestas consequências. A burocratização do poder, apoiado na energia do capital e na autoridade da guerra, precipitaria a desfocagem da pessoa e a atual desorientação. Se as figuras carismáticas contam a seu favor com uma espécie de mitológica eficiência, suscetível de parir vários tipos de monstro, a massa anónima desconhece-se a si mesma, tornando-se assim presa fácil de múltiplas eminências pardas. Descobrir o equilíbrio entre uma e outra pulsão, eis o que determinará o futuro a que teremos direito.

                                       

                     A ESCRITA DE MÁRIO CLÁUDIO
        AVALIAÇÃO DE VIVA VOZ PELO PRÓPRIO  


      ENTREVISTA A MÁRIO CLÁUDIO (2003)   



Teresa Paiva

Neurologista e escritora




































































































































ANTES DE DORMIR SONHO UM POUCO



Trocaria de bom grado o seu primeiro nome?
Não.
Quantidade de velas no seu último aniversário?
Duas.
Tatuagens?
Não, nunca.
Piercings?
Chegam os furos nas orelhas.
Já chorou por alguém?
Muitas vezes.
Praia ou campo?
Campo e mar.
Peixe ou carne?
Ambos.
Música preferida?
Leonard Cohen, Amália, Mozart.
Cerveja ou champanhe?
Champanhe.
Metade cheio ou metade vazio?
Metade cheio.
Lençóis de cama lisos ou estampados?
Bonitos.
Filme preferido?
Visconti: Os Danados.
Flor preferida?
Orquídea
Qual o animal que lhe merece mais simpatia?
Gato
Melhor refrigerante para os dias de calor?
Água fresca.
Qual dos seus amigos vive mais longe?
Uma filha.

Quantas vezes deixa tocar o telefone antes de atender?

Inúmeras.
Qual a imagem do seu telemóvel?
Um malmequer.
Pior do mundo humano?
O ódio.
E o melhor?
O amor e a esperança.
Um feito de que se orgulhe?
Ter feito uma pega no Campo Pequeno.
Última coisa que faz antes de dormir?
Sonhar um pouco
Qual o primeiro pensamento ao acordar?
Que bom!
O que nunca tira?
Nada.
Que dom da natureza desejaria possuir?
Cantar.
Tem um lema de vida?
Mistura entre o "Desir" e o "Talent de bien faire"..
Que livro está a ler?
A Família Desaparecida de Jesus.
Um herói de ficção?
Robin dos Bosques.
E na vida real?
Os heróis que incognitamente fazem bem pelo mundo fora.
Figura histórica preferida?
Afonso Henriques e D João II.
Uma saudade?
Talvez do amor.
Uma característica sua?
Frontalidade.
Deceções que teve na vida?
Muitas, com amigos.
Lugares onde morou?
Lisboa e Utrecht.
Lugares em que esteve e voltaria?
Las Vegas, Paris (sempre Paris), Mar Negro e delta do Danúbio.
Programas de TV a que assistia quando criança?
Não havia ou não me lembro. Já era adolescente quando veio a televisão.
Programas a que assiste hoje?
Quase nenhuns.
Quem lhe envia emails com maior frequência?
Colegas sobre trabalho científico, alunos e jornalistas.
Comidas preferidas?
Gosto de quase tudo.
Lugar em que desejaria estar agora?
Onde estou.
Como gostaria de morrer?
Tranquila.
Regressando, quem gostaria de ser?
Não sei.
Espero que tenha ainda tempo para...

…escrever mais uns livros.




Baptista-Bastos

Jornalista e escritor







































JOSÉ ANTUNES, O REPÓRTER DO ROSTO HUMANO

    Homenagem a um grande fotógrafo esquecido



José Antunes foi o grande repórter do rosto humano. Possuía o dom, raríssimo, de fazer com que a câmara se comovesse na fixação do instante supremo em que o rosto humano adquire o registo de uma discreta intemporalidade. Uma certa maneira de olhar – direi. Uma certa maneira de transmitir a ternura que, por vezes de forma subjetiva, reside e povoa no vulgar quotidiano. Entre José Antunes e Lisboa manifestava-se uma cumplicidade feita de mil e uma conivências. Não era a cidade imediatamente retratada; sim a cidade reinventada, sentida, com odores e matizes, com a claridade de uma luz muito mais entrevista do que realçada com veemência.
A arte de José Antunes consistia nessa invulgar união entre analogia, metáfora e realidade. Uma cidade cheia de olhar. Cheia do olhar de José Antunes que, entre a contingência e a necessidade, optava por essa via admirável que era a de pessoalizar o seu próprio mundo, singularizar a sua própria cidade.
As fotografias de José Antunes envolviam um intenso trabalho. Trabalho de amor. Trabalho de paixão. A minudência de certas atmosferas captadas por este homem que converteu a câmara fotográfica num objeto recriador pertence aos domínios da grande arte. Exatamente porque, transfigurando sem desfigurar, José Antunes conferiu a Lisboa e a quem cá vive uma outra dimensão, uma nova grandeza. Grandeza e dimensão que se constituem como a homenagem de um homem generoso e bom aos outros homens. Uma cidade cheia de olhar. Desse olhar que é a imagem devolvida de nós mesmos – e, simultaneamente, uma declaração de amor a Lisboa.

                    

José Antunes, de quem reproduzimos uma das suas belas imagens, faleceu em 29 de maio de 2004. Ingressou no jornalismo profissional em 1960 e nos últimos anos de vida todos os camaradas de ofício tratavam-no por "Mestre".   O poeta da fotografia era igualmente um extraordinário repórter. Celebra-se neste momento o 20º aniversário de uma iniciativa empreendida pelos seus amigos e que teve o apoio do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa: a edição de um esmerado álbum reunindo as suas melhores fotografias. A realização desta obra foi pretexto para homenagens que fotógrafos de todo o País prestaram a José Antunes, em 1991, na Casa da Imprensa e na Associação Portuguesa de Arte Fotográfica. O livro deveria representar o ponto de partida para uma grande exposição no Palácio de Galveias, em Lisboa, a qual, porém, nunca chegou a realizar-se.


Leonor Xavier

Jornalista e escritora





















    PORTUGAL


Esta manhã espreitei uma nesga de rio, quando abri a minha janela. Sempre que vejo o Tejo assim, azul em dia azul, respiro fundo a graça de Deus que me fez nascer nesta cidade de Lisboa e neste meu país Portugal. Que foi milagre assim inventado na hora da Criação, como costumo dizer aos viajantes que nos visitam, meus amigos, companheiros, irmãos, a partir do momento em que cumprimos o primeiro encontro marcado num canto qualquer de Lisboa, e uma cumplicidade entre nós então se faz, definitiva. Porque a contemplação de Lisboa leva às conversas sem fim sobre nós e os outros, apaga-se a medida das horas no que vamos falando sobre as diferenças e misturas e contrastes, sobre os casos de gente e os episódios da História. Pois não é verdade que somos o país mais pequeno da Europa, o mais antigo e definido, o mais variado, o ponto de encontro, o cais de chegada e despedida, meio caminho entre os cantos mais opostos do vasto mundo?
Atravessei a minha rua, sinto o sossego da manhã de Lisboa a começar, penso que nós, portugueses, também somos desde sempre viajantes. Porque tanto viajámos, somos por tradição o país do afecto e do bem querer, na curiosidade pelos outros que disfarçamos na prudência das primeiras palavras e logo depois abrimos na generosidade imensa da nossa maneira de ser. Generosidade que permanece nos dias de hoje, muito além da frieza, da distância ou da violência que vai marcando as cidades, por toda a parte.
Talvez porque a nossa medida de terra seja pequena de mais em face da linha do horizonte sobre o mar português, somos dados à imaginação, à fantasia, ao sonho. A aventura da distância, as mudanças de vida, os percursos pelo desconhecido são mistério, desejo, consagração de coragem na hora de regressar. Enquanto desço agora a minha rua, tenho acesos os meus sentidos e já percebo minúsculos rebentos nos troncos dos jacarandás, em anúncio de primavera. Daqui a pouco, as árvores vão cobrir de flores azuis o chão, não faz calor nem frio, esta harmonia em mim é a felicidade absoluta, a compensar-me de todos os males.
Vou andando, atravesso outras ruas, penso na sedução de Lisboa oferecida ao meu olhar. O recorte dos telhados, o desenho das casas, as frestas de paisagem que se derrama sobre o Tejo. Sinto uma vontade imensa de partilhar a beleza. A terra, o céu e o rio. A claridade e a transparência do ar.
Canto, baixinho, pela rua.



Gil Montalverne

Jornalista e divulgador científico




































































































































































PIOR DO MUNDO É A GANÂNCIA PELO PODER



Trocaria de bom grado o seu primeiro nome?
Simplificava. Trocava o nome do poeta que não sou (Augusto Gil) por simplesmente Gil.
Quantidade de velas no seu último aniversário?
Nenhumas, pois já não gosto de festejar os anos.
Tatuagens?
Tenho marcas que cheguem e não necessito disso para me diferenciar.
Piercings?
Só algum creme para conservar a pele.
Já foi a África?
Estive várias vezes e gostei muito (da terra em si mas não dos regimes coloniais obscenos e desumanos).
Já ficou bêbado?
Nem por isso. Só em tempos bêbado de amor.
Já chorou por alguém?
Muitas vezes. Por aqueles que amava e ainda amo.
Praia ou campo?
Adorei o mar que tive de abandonar por problemas de saúde. Mas seria difícil a escolha. Adoro toda a Natureza, infelizmente tão maltratada.
Peixe ou carne?
Peixe.
Música preferida?
Música que me induza a calma de que necessito. Clássica ou mesmo ligeira mas melodiosa.
Cerveja ou champanhe?
Nenhuma.
Metade cheio ou metade vazio?
Água ou leite q.b.
Lençóis de cama lisos ou estampados?
Lisos
Filme preferido?
Difícil de responder. Dr. Jivago. África Minha e "As palavras que nunca te direi" definem o tipo.
Flores preferidas?
Agradam-me as tropicais mas até um campo de malmequeres amarelos me fascina.
Qual o animal que lhe merece mais simpatia?
Sinto por todas as espécies igual simpatia, com excepção, infelizmente, de "alguns" representantes da espécie humana, dita racional, que para além de irracionais, representam o que há de mais deplorável e indecoroso na nossa sociedade.
Melhor refrigerante para os dias de calor?
Água ligeiramente fresca.
Qual dos seus amigos vive mais longe?
Vivem dentro de mim mesmo os que já partiram mas há sempre um algures a alguns quilómetros.

Quantas vezes deixa tocar o telefone antes de atender?

Atendo o mais rápido possível. Podem precisar de mim.
Qual a imagem do seu telemóvel?
Não tenho mas se tivesse seria uma praia com palmeiras e o azul do mar ao fundo.
Pior do mundo humano?
A ganância pelo poder e pelo dinheiro.
E o melhor?
Cuidar dos que mais necessitam, crianças e idosos, todos os que não conhecem uma vida digna de ser vivida.
Um feito de que se orgulhe?
Nada de especial. Procuro – repito, procuro – ser honesto, solidário e sincero em tudo o que faço.
Última coisa que faz antes de dormir?
Preparar-me para dormir o melhor possível.
Qual o primeiro pensamento ao acordar?
Afinal estou vivo!
O que tem debaixo da cama?
Nada de especial.
O que nunca tira?
O desejo de acreditar.
Que dom da natureza desejaria possuir?
Tudo na Natureza tem os dons que a evolução lhe concedeu. Como homem procuro aceitar os que me são próprios. Ser melhor ou pior está dentro de mim.
Tem um lema de vida?
Viver e respeitar quem me rodeia e merece a minha amizade.
Que livro está a ler?
Vários... As Memórias de Rómulo de Carvalho.
Um herói de ficção?
Já não tenho. Passou o tempo de gostar da ficção.
E na vida real?
Todos os que lutam pela Paz e Igualdade entre os Homens.
Figura histórica preferida?
Estão mais ou menos ultrapassadas.
Uma saudade?
Mergulhar no Mar.
Uma característica sua?
Tenho muitos medos mas luto com alguma esperança.
Deceções que teve na vida?
Nada de especial salvo algum mal que tenha feito a alguém sem querer.
Lugares onde morou?
Lisboa sempre. Com estadas no Alentejo.
Lugares em que esteve e voltaria?
Tenho saudades de Londres pelos bons dias que lá passei.
Programas de TV a que assistia quando criança?
Não havia TV
Programas a que assiste hoje?
Mezzo e National Geographic
Quem lhe envia emails com maior frequência?
Os que são meus amigos
Comidas preferidas?
Bacalhau com batatas a murro.
Lugar em que desejaria estar agora?
Com saúde e na companhia de quem gosto em qualquer lugar não muito longe de Lisboa.
Como gostaria de morrer?
Prefiro não pensar nisso.
Regressando, quem gostaria de ser?
Não vai acontecer. Mas para que haja resposta direi: igual a mim próprio, melhorando o que possa ter de mau.
Espero que este ano eu possa...
Ter esperança.































Fernando Catarino


Biólogo, catedrático jubilado da Faculdade de Ciências
da Universidade de Lisboa
e antigo diretor do Jardim Botânico desta Universidade





































JARDIM BOTÂNICO DA UNIVERSIDADE DE LISBOA

   TESTEMUNHO EM TEMPO DE DESESPERANÇA


Nota prévia. O nosso convidado Professor Fernando Catarino foi o rosto e a alma do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa (vulgo Jardim da Escola Politécnica) que dirigiu durante vinte anos. Os seus profundos conhecimentos e singular capacidade de comunicação marcaram gerações de estudantes. Seduziu para a Botânica milhares de pessoas que tiveram o privilégio de o ter como guia em visitas ao Jardim ou informais digressões científicas. Uma conversa com ele converte-se instantaneamente numa sessão empolgante de revelação dos pequenos grandes mistérios do mundo natural. Recentemente, os Amigos do Jardim souberam com perplexidade que o Professor Catarino, outrora um dos impulsionadores da fundação da respetiva Liga, se havia desligado da mesma. Enquanto isto, vai tornando-se penoso o estado decadente em que se encontra aquele património nacional de superlativo interesse histórico, cultural e científico. Há uma semana foi tornada pública a declaração terminante do reitor António Nóvoa (UL) de não haver verbas para a requalificação do Jardim. Igual atitude de penúria vem sendo adotada pelo Ministério e pela Câmara Municipal de Lisboa. No presente quadro de aflitiva indigência convidámos o Professor Fernando Catarino a discorrer sobre o seu (e nosso) amado Jardim. Este é um espaço de pluralidade de opiniões. Como sempre, todos os comentários serão acolhidos com deferência e gratidão.         Pedro Foyos

                                                             

Não escondo o grande pesar interior que me causa a situação atual do Jardim. Ainda recentemente mostrei-o aos Amigos de Lisboa e de novo me invadiu uma imensa mágoa por ver o tempo a escoar-se e goradas as expectativas que fui criando ao longo de décadas.
Completam-se em Novembro nove anos que me jubilei e tive nessa ocasião um verdadeiro alívio em passar a "batata quente" porque estava exausto de tentativas fracassadas para recuperar o Parque Mayer e arquitetar uma abertura-continuação do Jardim até um portal do lado da Avenida da Liberdade. Uma via-sacra de promessas municipais, iniciadas na época do presidente Krus Abecassis e que se prolongariam aos "gloriosos" tempos de Santana Lopes. Promessas e até projetos vários como o do arquiteto Frank Gehry a quem mostrei o Jardim e as confrontações com o Parque Mayer.
Entretanto, os sérios e crónicos problemas do Jardim Botânico não cessavam de agravar-se. Enumero, entre outros, os decorrentes das aposentações de pessoal, os custos de manutenção (com realce para a água), a degradação crescente dos arruamentos. A um outro nível não deverá ignorar-se a dificuldade de as tutelas se entenderem à volta de um projeto comum. Refiro-me à Reitoria, ao Ministério (Mariano Gago) e aos pequenos "tiranetes" das "chafaricas" da Politécnica: (Botânica – Fernando Catarino; Geologia – Galopim de Carvalho; Museu Bocage – Calos Almaça; Museu de Ciência – Bragança Gil; Geofísico – Mendes Vítor). O Museu de Ciência a querer englobar toda a Politécnica e os restantes a quererem absorver o Museu de Ciência. Há nisto tudo também um grupo de pressão, a Liga dos Amigos do Jardim Botânico, cuja fundação estimulei mas de que me desliguei nos finais de 2010 por discordar totalmente da política seguida pela sua presidente, a Dr.ª Manuela Correia. Com efeito, a certa altura dei-me conta de que a estrutura diretiva da Liga dos Amigos se preocupava sobremaneira com demasiados tópicos: ambiente, urbanismo, património, intervenções de manutenção e recuperação de espaços verdes, sugerindo ou apoiando abaixo-assinados sem prévia consulta ou discussão pelos sócios e versando matérias essencialmente alheias ao Jardim Botânico.
Apercebo-me de que é encarada agora como uma grande vitória a obtenção pelo Jardim Botânico e edifícios da Politécnica do estatuto de Monumento Nacional, incluindo a cerca do Convento da Cotovia, na medida em que tal situação se torna inviabilizadora da solução selecionada e escolhida.
Com uma nova direção do Jardim (Prof.ª Maria Amélia Loução, que cedo passou a vice-Reitora com o pelouro, entre outros, da Politécnica) havia nascido aquele compromisso com a Câmara Municipal de Lisboa e a abertura do concurso de ideias, a seleção das cinco propostas melhores e o anteprojeto Aires Mateus.
Transmiti a quatro das equipas de arquitetos, fazendo-o de forma detalhada, independente e desapaixonada, informações sobre a minha visão dos valores concernentes ao património, estrangulamentos, circulação e objetivos que garantissem sustentabilidade ao futuro projeto. Não fui contactado pela equipa ganhadora.
A Reitoria, entretanto, arranjou um grupo de avaliação internacional que opinou no sentido de criar uma única estrutura a depender diretamente do Reitor António Nóvoa, com quem tenho conversado, a pedido dele, sobre o que penso (e pensei) nestes meus mais de cinquenta anos vividos naquele magnífico espaço.
Por razões de que porventura me arrependerei hoje, fiz questão de me afastar, de todo, do Jardim e dos seus problemas, nestes quase nove anos. Todavia, não me eximirei de dar resposta a quem pretenda conhecer essas razões.
Chegados ao momento presente, deparamos com a necessidade de um compasso de espera. A crise nacional vai fazer atrasar eventuais obras de fundo por uma década, pelo menos.
Perguntar-se-á: – E o Jardim aguenta?
Responderei: – Aguenta. Mas alguma coisa terá de ser feito, quanto mais não seja para justificar o preço das visitas. Em data recente, a responsável atual, Dr.ª Ireneia Melo, falava-me da possibilidade de alguns mecenatos a breve trecho.
A situação interna, inclusive no âmbito das relações humanas entre os diferentes grupos de trabalho dos Museus da Politécnica, não é a ideal. Pressinto lutas anti-Reitor que me parecem assanhadas.
Não é fugir à luta, porém não me salta o pé para, nesta entorpecedora indefinição e não menos paralisante conjuntura de espera, embrenhar-me em tais pelejas.
Fico-me por este testemunho.
Mas sempre direi que o Jardim é valiosíssimo de história, de valores estéticos e botânicos, e nem por um momento deixarei de acreditar que o continuará a ser.

                                       

Aproveitando a presença do nosso Convidado,
os jornalistas autores deste "sítio de encontro" apresentam um pequeno filme
produzido para a RTP em 1999.

VISITA GUIADA AO JARDIM BOTÂNICO
pelo Professor Fernando Catarino





Autor: Luís Osório. Realização: Rui Pereira e João Silva
AGRADECIMENTO:DIREÇÃO DE ARQUIVOS E DOCUMENTAÇÃO DA RTP


Maria do Sameiro Barroso

Médica e escritora










O ESCORPIÃO DOS SONHOS


Ontem. O escorpião do tempo devorava
as mãos de gelo.
Queimava-me a visão do amor.
De súbito, um rosto, uma imagem.
E o silêncio era chama, centro, roda imparável,
máquina incessante:
a poesia do corpo desvela âncoras sem limites.
Nos gumes açulados, um infinito ardor
perfura a morte.
Numa onda perfeita, os amantes despertam
em carnívoras flores que os rios extravasam,
no ópio que os seus poros fabricam.
Ontem.
A mansarda do amor dilata os sonhos.
As nuvens do coração dormem nas ilhas negras
da alvorada
e os corpos dormem, perdem-se do gelo.
Queima-me a visão do amor.
As ondas pernoitam, saciadas
na noite de estrelas periféricas.


José Jorge Letria

Escritor.
Presidente da Direção e do Conselho de Administração
da Sociedade Portuguesa de Autores











INSTANTÂNEOS DA ATUALIDADE (MARÇO DE 2011)

    UMA NOVA PÁGINA NA HISTÓRIA DO MUNDO

O mundo tem piorado bastante em termos globais porque foi deixado à mercê da ganância dos grupos e das agências financeiras que se alimentam apenas da sede de lucro, sem olhar às pessoas e à soberania das nações. Mas, por outro lado, estamos a assistir a fortes sinais de indignação e de revolta, designadamente no mundo árabe, que podem abrir uma nova página na história do mundo, nem que seja pela via de uma grave crise petrolífera. A grande questão que hoje se coloca, sobretudo depois da catástrofe no Japão, é saber se conseguiremos manter este planeta vivo e, em caso afirmativo, se seremos capazes de criar uma nova ordem económica e social, que coloque as pessoas em primeiro lugar e não os cifrões e a frieza das estatísticas.

PALAVRAS RECUPERADAS

A agressão humana ao mundo natural é um tema recorrente em José Jorge Letria, ocupando espaço alargado numa entrevista que lhe fizemos há seis anos. Destacamos um fragmento que adquire incontestável atualidade e deixa transparecer a voz do poeta que José Jorge Letria sempre é:


«Se o homem do futuro não conversar com os animais, com as pedras e os rios vai ter muitos mais tsunamis, muitos mais vulcões enfurecidos pelas experiências nucleares. Estamos a pagar a fatura do modelo e do conceito de progresso que adotámos. Estamos a virar a Natureza contra nós. Ou nos tornamos aliados dela ou desapareceremos.»

•  Ver texto integral no espaço "Grandes Entrevistas"


Viriato Soromenho-Marques

Professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
e conselheiro do presidente da Comissão Europeia
para a área do Ambiente









ECOLOGIA DO ESPÍRITO


Num país com um sistema de justiça que é um convite à impunidade, num país onde os incêndios florestais começam de madrugada, num país onde as pessoas se colocam debaixo de falésias à espera de que nada lhes aconteça, num país onde os produtores de vinho foram mais fortes do que o interesse geral impedindo que a taxa de álcool no sangue fosse colocada no nível adequado, num país onde algumas elites protestam quando as impedem de atirar o fumo dos seus charutos para a cara dos outros em espaços públicos, num país como este, a política tornou-se apenas num spoil system. Nas eleições o que está em causa parece ser apenas a repartição dos despojos de um Estado, impotente e inoperante, que só serve para os que dele se querem servir.
Unamuno, o grande pensador espanhol, disse, e com razão, que Portugal era um país de suicidas. Poderemos acrescentar que também de homicidas, como a história trágico-rodoviária o prova em cada dia. Contudo, não existe alternativa à política. Não a esta, que se limita a ser cúmplice, quando não promotora da iliteracia cívica e bárbara que por aí campeia. Quando tivermos um candidato que seja capaz de dizer: "Portugueses, o principal problema de Portugal começa por nós próprios…", então talvez haja razão para alimentar a esperança. No nosso país, a principal crise ecológica é a do espírito.


Eduardo Lourenço

Ensaísta






HÁ 80 ANOS, QUANDO EU ERA MENINO E BRINCAVA…


Era uma vez um menino chamado Eduardo Lourenço.
Sim, o grande pensador que conhecemos e admiramos foi um menino brincalhão na sua aldeia de pedra beirã. De pedra e de Pedro, pois falamos de S. Pedro do Rio Seco. Ousámos um pedido que ninguém lhe havia feito: uma viagem no tempo, recuando oitenta anos, às memórias da infância («… esse espaço – nas suas palavras – dentro do qual se coloca algo de parecido com a felicidade.») Diz-nos que as suas brincadeiras de então remanesciam de jogos medievais com nomes estranhos, porém bem vivos na memória. O jogo da xona. O jogo do picachão. Também um outro, verdadeiro precursor do moderno basebol: o jogo do bete. E não gostava nada, mesmo nada, de perder…
Melhor que o palavreado escrito será ouvir o menino Eduardo Lourenço de viva voz:


Ouvir gravação

(Memória recolhida por Maria Augusta Silva)