JANEIRO 2018: PARABÉNS, SENHOR FRANKENSTEIN

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Foi há 200 anos que Mary Shelley criou o género literário que perduraria designado por “Ficção Científica”

Uma forma eficaz de avaliar a importância e a influência de determinada obra (um livro, um filme, por exemplo) será a de conceber a hipótese da sua inexistência. O exercício, aplicado ao domínio da ficção científica, revelar-se-ia concludente. Presuma-se: a Lua sem as expedições imaginadas por Verne e Méliès; ou a automação do mundo moderno e a coexistência homo-machina sapiens sem os robots de Isaac Asimov; ou a ideia de espaço infinito sem 2001: Odisseia no Espaço; ou as nossas boas-vindas a seres extraterrestres sem Encontros Imediatos do Terceiro Grau...
… Ou, decisivamente: o mito da criação científica de vida humana sem Frankenstein.
A ficção científica tem a sua pré-história nesta personagem fantástica, criada pela jovem britânica Mary Shelley(1797-1851)e publicada em janeiro de 1818, há precisamente 200 anos. Título inicial: “Frankenstein ou o Moderno Prometeu”


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A “cândida” Mary Shelley numa imagem que se presume próxima da época em que inaugurou um fecundo género literário: o da “ficção científica”

A novela é verdadeiramente precursora ao refletir as novas descobertas da ciência e da tecnologia. Sem dúvida a primeira ficção científica de sempre, se excluirmos as abordagens esporádicas de Cyrano de Bergerac e de um outro francês, Jean-Baptiste Cousin de Grainville, que, em 1805, publicou uma obscura história intitulada “Le Dernier Homme”. Pelo contrário, a obra de Shelley possui uma dimensão e consistência apreciáveis, tendo sido escrita sob a influência científica de eminentes sábios da época, com destaque para Luigi Galvani, o famoso anatomista italiano cuja descoberta da eletricidade dinâmica era um tema que continuava a empolgar os cientistas de toda a Europa. Galvani observara que os músculos das pernas de uma rã dissecada se contraíam repentinamente quando uma faísca proveniente de uma máquina de eletricidade estática as atingia, ou quando um bisturi metálico lhes tocava enquanto a máquina estava a funcionar, mesmo não havendo contato direto com as faíscas. Descobriu, então, que os músculos das pernas da rã reagiam, na ausência total de faíscas elétricas, desde que contatassem em simultâneo com dois metais, como o ferro e o latão. Mais tarde, um outro cientista italiano, Alessandro Volta, demonstrou que dois metais diferentes podiam originar uma corrente elétrica. Já não se duvidava, no princípio do século XIX, que a eletricidade tinha alguma conexão misteriosa, mas aparentemente íntima, com a vida. Os cientistas mais ousados começaram a especular sobre a possibilidade de criação científica de vida.
Também a jovem Shelley, conhecedora das investigações de Galvani e de Volta, pensou no assunto. Porém, foi mais longe. Muito mais longe. Concebeu uma criatura enorme, humanoide, criada artificialmente. O tema pareceu-lhe excelente para um romance científico. Figura central do enredo: Vitor Frankenstein, um inquieto anatomista (como Galvani) que decidiu empreender a experiência limite de infundir vida a um corpo inteiro e não apenas a um músculo isolado. A esse plano prodigioso acrescia a ambição de conferir à nova forma de vida um caráter permanente. Jamais seria uma demonstração transitória, de observação laboratorial.
A genialidade de Mary Shelley não se confinou ao pioneirismo do tema. Poderia ter escrito uma banal ficção de terror gótico, recorrente na época. Preferiu ir às raízes filosóficas e metafísicas do mito, o mito prometeico do homem que ousa franquear o território divino e se torna escravo e vítima do ser que criou. Exercício literário de ressonância goethiana, revela a profundidade das mais ancestrais angústias e aspirações humanas sem deixar de constituir, enquanto realização ficcional, uma obra arrebatadora.
Todavia, é diminuto o número de pessoas que leram o livro. Melhor fortuna teve Frankenstein no cinema e na televisão com uma prole de duas centenas de títulos. Infelizmente continua a sofrer estropiações grosseiras que o desterram sem piedade para as profundezas dos horrores abjetos.
Perdurará a inscrição memorável: este é, efetivamente, na história da literatura de ficção científica, o primeiro marco sólido, consistente, incontestado. À margem das inúmeras discussões académicas sobre o que é e não é ficção científica, verifica-se uma assinalável convergência na atribuição dos louros a este livro. Além do pioneirismo temático, merece distinção quanto à qualidade literária.


Pedro Foyos
Janeiro 2018